Muito nerd.
Fiquei tão chocada por conhecer uma pessoa claramente inteligente,
engraçada e com pensamentos tão genuínos e, sem sombra de dúvidas,
acelerados, que a minha única reação inicial às suas sugestões questionáveis
foi erguer uma sobrancelha escura e, logo em seguida, sorrir.
Abri um sorriso para ela, que retribuiu. Sthela apareceu uns dez minutos
depois com uns bolinhos de chocolate para a discussão do livro O Sol é
Para Todos, do nosso clubinho do livro com impressionantes duas
participantes: eu e ela. Convidamos Milla para ir conosco, e ela logo
aceitou.
Naquele dia, nós três fomos a um café superfaturado e conversamos
sobre as nossas vidas, interesses amorosos, desejos para o futuro, medos,
frustrações e um milhão de outros aspectos da vida de jovens adultas.
As conversas se tornaram tão intensas e, ao mesmo tempo, desconexas,
que, quando percebemos, já falávamos sobre Augusto Nogueira, um garoto
melequento e loiro que fazia bullying com Sthela no ensino fundamental e
que ela, até hoje, não superou.
É engraçado pensar que, desde aquela tarde qualquer em que uma garota
de 1,80m de altura, com cabelos crespos volumosos, uma pele negra
lindíssima repleta de tatuagens e um sorriso tão perfeito quanto o resto do
seu rosto me deu um banho de chá gelado e aceitou, de bom grado, fazer
parte de uma tarde com duas estranhas… minha vida social mudou
drasticamente. Porque Milla e Sthela eram tudo de que eu precisava.
Naquele mesmo dia, fizemos um grupo no WhatsApp, e isso foi mais que
suficiente para desencadear uma discussão sobre qual seria o nome do
grupo. Sthela sugeriu que fosse As Três Mosqueteiras, ao que Milla se
recusou, insistindo que seria melhor se fosse um nome mais original, como
o do seu desenho animado favorito da infância — As Três Espiãs Demais.
Antes que as duas agarrassem os cabelos uma da outra naquele café
chiquérrimo, repleto de pessoas que já nos encaravam mais do que o
normal, eu não me abstive da discussão e reivindiquei o voto de Minerva.
Escolhi As Três Mosqueteiras, mas só porque sou fã de Alexandre Dumas.
E, nesta tarde de uma sexta-feira qualquer — as duas se tornaram minhas
melhores amigas.
Por essa razão, foi duro quando Sthela descobriu, há alguns meses, o
câncer de pâncreas. Quando foi diagnosticada, já estava muito avançado.