CAPÍTULO UM
Como uma imensa árvore-de-natal
“A esperança é aquela coisa com penas que pousa na alma e canta a melodia sem palavras.”
— Emily Dickinson
Sou aficionada.
Me considero uma leitora comprometida de livros de ficção e, para ser
sincera, não nada no mundo que me tire suspiros demorados como um
bom e velho livro de romance. O romance é frequentemente definido pela
promessa de um “felizes para sempre” no final do último capítulo
embora isso não seja, obviamente, uma regra.
Sendo bem patética, o que não faz muito o meu estilo, eu queria ter a
chance de pular para dentro de um livro de romance ao estilo de Orgulho e
Preconceito ou até mesmo Romeu e Julieta apesar do final trágico e
ser a protagonista pela qual o mocinho faz de tudo para agradar.
Geralmente, o que se tornou um clichê, esses homens são incrivelmente
lindos, inteligentes e perfeitos, e até prometem queimar o mundo se isso
fizer a mocinha feliz.
Em muitas histórias de romance que li, as mocinhas têm uma vida
difícil e, na maioria das vezes, são pobres e lutam para alcançar algum
objetivo que mudará suas vidas drasticamente. E, como tudo nesses livros é
roteiro, alcançar esses objetivos significa mudar para melhor. Quando
encontram algum empecilho no meio do caminho, o mocinho aparece em
seu socorro, fazendo com que ela atinja o seu objetivo geralmente com
menos dificuldade.
Ah… claro.
Tudo o que eu queria era o meu cavaleiro de armadura e cavalo branco
vindo me salvar.
Mas não! Isso só acontece nos livros.
Na realidade, se você tem câncer, você tem e ponto. Não como fugir
disso. Mesmo que um cara lindo apareça para te “salvar”, você vai
continuar tendo câncer, e a sua batalha será travada sozinha. Ele não vai
poder te ajudar. É assim que é.
Respira!
Foco, Esmay! Não é hora para besteiras!
Eu poderia ficar horas divagando sobre livros, músicas e até mesmo os
meus pratos preferidos, sem dar a mínima para o que o homem à minha
frente está falando. Mas a maneira como a minha mãe pressiona minha mão
direita e o meu pai segura firme o meu ombro me faz ancorar meus
pensamentos por alguns segundos e parar para ouvir o que o homem está
dizendo.
Ele tem olhos escuros e puxados. Estou um tempo tentando adivinhar
sua idade. Cinquenta e seis? Não. Ele parece mais velho. Sessenta anos,
então? Isso. Ele deve ter sessenta anos. Seus traços deixam clara sua
origem asiática. para ver que ele não cresceu no Brasil pelo sotaque
carregado e pelos pequenos acenos de cabeça que faz, como se estivesse
acostumado a demonstrar respeito daquela forma.
Câncer? ouço mamãe dizer, enquanto aperta minha mão dez vezes
mais forte. — Como isso é possível? Ela só tem 24 anos. É perfeita!
Câncer… Câncer, câncer, câncer.
Tenho câncer?
Repito um zilhão de vezes essa pergunta na minha mente, na esperança
de que se torne menos verdade. Na intenção de acreditar que estou em um
sonho. Ou melhor: um pesadelo.
Meu coração dispara, batendo no pescoço como se eu estivesse
competindo em uma meia maratona. Sinto o chão sob meus pés ceder. Vou
despencar de um lugar muito alto se continuar pensando sobre isso.
Câncer. Tenho câncer.
Aperto a manga do meu casaco e um tique nervoso começa a se formar
nos meus dedos. Minha mandíbula treme involuntariamente. Não quero
chorar. Entretanto, acho que vou.
Tenho câncer. Como isso é possível, doutor… Zhang Wei?
Veja só, ele tem ascendência chinesa. Obrigada por me enriquecer
culturalmente, doramas!
Minhas mãos estão formigando e minha boca fica seca. É difícil engolir,
até falar. No entanto, sinto uma desconexão com o meu próprio corpo.
Meus lábios se abrem antes mesmo de a minha mente atordoada perceber o
que estou dizendo:
Senti muitos sintomas estranhos e persistentes nas últimas semanas
para alguém “perfeita”, mãe.
Sacudo a cabeça, como se isso pudesse organizar a confusão que se
instalou em meus neurônios, estalo a língua entre os dentes (um hábito
estranho que adquiri com o tempo) e me remexo na poltrona confortável e
macia demais, como se alguém tivesse tentado compensar o meu sofrimento
dizendo: “Você tem câncer? Ok. Mas… você está confortável? O tecido da
poltrona é macio? Quer uma xícara de chá?”
Faço tudo e, ao mesmo tempo, nada .
Um silêncio toma conta de cada canto desse consultório ridiculamente
sofisticado, e até mesmo de mim, o que é um feito considerável.
Estou atordoada. Meu cérebro me prega peças. Charadas que não consigo
desvendar.
Observo o ambiente ao meu redor e percebo a cafeteira importada em um
canto da mesa. Uma cafeteira importada. Quem precisa de uma cafeteira
importada em um consultório Oncológico? Quero ir até utilizar uma das
cápsulas para me servir de um delicioso café.
Eu quero um café.
Quero?
Quero mesmo?
Meu cérebro está me pregando peças. Outra vez. Adivinha? Eu nem tomo
café. Mal lembro a última vez em que coloquei um gole na boca, então por
que diabos estou cogitando isso agora?
Doutor Zhang divide o seu olhar entre mim, o tablet e os últimos exames
que fiz. Não me apego a isso. consigo sentir o aroma do desinfetante de
lavanda que usaram mais cedo na limpeza. Até isso parece ensaiado.
Meus pais me encaram, ambos estupefatos com o meu comportamento
estranho diante de uma situação tão… desestabilizante.
Massageio a parte posterior do pescoço com as mãos pegajosas, tentando
desfazer uns nós que se formaram.
Fito meus pais mais uma vez. Eles estão com uma expressão que me
destroça por dentro. Não posso lidar com isso. Não agora. Sendo assim,
escolho apenas desviar minha atenção para o doutor Zhang não antes de
murmurar um “desculpe” para a minha mãe.
A verdade é que nem sei o motivo de ter feito tal comentário. Não estou
em condições de opinar em absolutamente nada. Meu coração parece que
vai sair pela boca. Minha garganta está tão seca que é difícil engolir a saliva
e, se eu continuar a sentir tanta falta de ar assim… temo desmaiar aqui
mesmo. Pelo menos um ponto positivo em estar em um consultório
médico.
Cansaço incomum, suor noturno inconveniente que encharcava minhas
roupas, febre baixa no fim da tarde… Deus, até coceira sem causa aparente
e perda de peso eu tive. Perdi três quilos, para ser exata, que não estava
com apetite. Faltei inúmeras vezes às aulas da faculdade por achar que
estava exausta demais. Pensei até que poderia ser anemia. Mas, sabe como
é… A vida adora pregar peças na gente.
Após um episódio nada agradável de tontura e desmaio na universidade,
fui ao médico para saber o que estava acontecendo. Para mim, não parecia
nada demais. um mal-estar. No exame físico, o médico constatou um
linfonodo aumentado; era indolor e firme, na região do pescoço (cervical
esquerda). Quando o médico solicitou exames estranhos demais para o meu
gosto, eu desconfiei que poderia haver algo errado comigo. E então os
resultados arrasaram as minhas chances de não ser nada grave: hemograma
alterado (leve anemia, leucócitos aumentados). Raio-x do tórax mostrando
massa mediastinal (sombra aumentada).
Encaminhamento para um hematologista-oncologista.
Quando ouvi que ele me encaminharia para um hematologista, não
saquei. Mas, quando disse a próxima palavra: oncologista… Droga! Meu
cérebro se acendeu em alerta, como uma imensa árvore de Natal.
Oncologia tinha a ver com câncer, e câncer não era nada bom.
O especialista solicitou uma biópsia do linfonodo que confirmou:
Linfoma de Hodgkin… O-o quê? gagueja meu pai, e o doutor
Zhang endireita os óculos fundo de garrafa.
Linfoma de Hodgkin clássico, subtipo esclerose nodular. É um câncer
bem comum em jovens explica o médico, e meu pai afunda as unhas na
pele dos meus ombros. Ele continua: É o subtipo mais frequente,
responsável por cerca de 60% dos casos de linfoma de Hodgkin clássico.
Eu tenho muita sorte ou muito azar?
Posso estar enganada, mas percebo que a voz dele não demonstra
ansiedade aparente. Isso significa que não deve ser tão ruim, né?
É um câncer mais comum em adolescentes e adultos jovens e quase
sempre afeta gânglios linfáticos no pescoço, acima da clavícula e no tórax
(mediastino) — continua o doutor Zhang, e eu prendo a respiração.
Ah, Deus! Técnico.
Ele é muito técnico. Preciso, incisivo.
Minhas mãos estão suando e eu respiro com dificuldade. Meu queixo
treme freneticamente, e encontro uma forma de apaziguar esse caos: mordo
o lábio inferior e aperto os olhos com força. Uma única lágrima abre
caminho pela minha bochecha, apenas para que outras a acompanhem logo
em seguida.
Tudo bem, Esmay? pergunta o doutor Zhang, em alerta. Se
estiver sentindo alguma coisa basta…
— Estou bem, doutor — minto.
Minhas mãos estão trêmulas e eu pisco várias vezes na intenção de evitar
que meus olhos derramem mais lágrimas. Impossível. Sinto-me meio
estranha também, que a atmosfera do consultório é assustadoramente
sufocante.
Pode me responder uma pergunta? soluço, enquanto perfuro seus
olhos escuros, meu estômago se revirando feito vendaval.
Ele aquiesce com a cabeça.
Retiro uma mecha do meu cabelo cacheado do rosto, e ele observa o
percurso que mais uma lágrima faz na minha bochecha. Eu ignoro o pavor
que estou sentindo.
Esse câncer é agressivo? indago, sem saber ao certo o que fazer
com as minhas mãos inquietas.
Esmay…
Mamãe choraminga ao meu lado e aperta minha mão novamente. Acho
que vinte vezes mais forte que da última vez.
Sinceramente? Se o câncer não me matar, ela vai. Ou ao menos pode me
causar uma lesão nos nervos de tanto apertar.
Ela se remexe na cadeira para ficar de frente para mim, mas continuo
encarando o senhor Zhang. Só quero que ele seja sincero. Médicos precisam
ser, ou ao menos eu acho isso. Ele endireita os ombros e desliza os dedos
pelos cabelos lisos e grisalhos. Isso me deixa incomodada. Médicos são tão
frios, insensíveis. A impressão é a de que estamos no meio de uma palestra
de saúde sobre Oncologia.
Os cânceres considerados ele faz aspas com os dedos mais
agressivos são o glioblastoma e o melanoma… diz pausadamente, como
se eu fosse me desfazer em mil pedaços caso ele falasse mais rápido. A
essa lista, podemos incluir também os cânceres de pâncreas, pulmão, fígado
e intestino (colorretal). Mas é importante lembrar que a agressividade pode
variar conforme o tipo e o estágio. Essa ordem, no fim das contas… é uma
generalização.
Ergo as mãos e as chacoalho no ar, chamando sua atenção. Ele está
desviando da minha pergunta. Ótimo! É tudo de que preciso.
Doutor Zhang… não preciso de uma aula extensa sobre tipos de
câncer. Não agora rebato. Por favor, responda à minha pergunta e
seja o mais direto possível, sem enrolação!
O médico pigarreia, envergonhado, e ergue uma sobrancelha grisalha.
Fantástico! Agora, além de fazer parte dos 60% de jovens adultos com
câncer de Hodgkin, sou também mal-educada. Sinceramente? Pouco me
importo.
Qual o prognóstico? Acha que vou perder a minha qualidade de vida,
doutor? pressiono, e ele se curva para frente apoiando as mãos com os
dedos entrelaçados sobre a mesa. — Tenho chances de remissão?
Ele sorri. É rápido, mas eu percebo. Não sei bem o que pensar sobre isso.
Meu câncer é agressivo? repito a pergunta. A pergunta de meio
milhão de dólares, que vai acabar me deixando maluca se ele não responder.
— Doutor — imploro. — Meu câncer é agressivo… como o de Sthela?
Deus do céu! Sou horrível por perguntar algo assim? Sou egoísta por
querer que meu câncer não seja como o câncer de uma das minhas melhores
amigas?
Meu câncer. Algo nada agradável para eu chamar de meu.
— A questão é essa, Esmay? — retruca o médico.
Fico em silêncio.
Meus pais estão calados bastante tempo. Isso é, no mínimo,
problemático. Ele continua:
O câncer de Sthela é no pâncreas. Extremamente agressivo e com alta
taxa de mortalidade, devido ao diagnóstico tardio. Geralmente, é
assintomático nos estágios iniciais.
Um câncer como esse, quando detectado, já fez muito estrago.
É óbvio que o doutor Zhang tem conhecimento de quem é Sthela. Todo
mundo na clínica sabe seu nome, desde a recepção até os enfermeiros que
circulam em silêncio pelo piso de porcelanato polido e os corredores
amplos e iluminados. Ela é o que eles chamam de caso raro e extremamente
complexo.
Jovem demais para um câncer no pâncreas.
Ouço meu pai soltar o ar, e mamãe afrouxa o aperto em minha mão. Sinto
meus tendões dos dedos doloridos.
Sthela está no que a gente chama de cuidados paliativos. Mordo a
parte interna da bochecha e aperto as mãos até sentir as unhas perfurando a
pele. — Isso significa que…
Eu sei o que isso significa! interrompo. Ela é minha melhor
amiga. Não precisa me falar. Eu sei.
O ar fica preso na minha garganta, e um aperto no peito, quase
insuportável, me faz pressionar os lábios com força. O ar do consultório
agora está frio demais, sufocante.
Quanta dor sinto agora.
Meu coração parece que vai se partir em um zilhão de pedacinhos
microscópicos. Minhas mãos estão pegajosas, e eu sinto ainda mais vontade
de chorar. Conheço Sthela, e ela é minha melhor amiga. Eu sei. Sei o que
são cuidados paliativos.
O médico se remexe na cadeira, e o barulho do corpo em contato com o
couro me assusta. Meu Deus! Endireito os ombros, antes curvados, e
pressiono os olhos com a palma da mão, bem na base, na esperança de
acalmar a mente. Percebo um leve incômodo em sua expressão facial.
Suponho que o doutor Zhang não possua muita habilidade para lidar com
pacientes emocionalmente intensos.
— O seu câncer não é agressivo, Esmay — declara, enfim.
Abro meus olhos castanhos, e ele percebe minha surpresa. É óbvio que
estou surpresa, doutor Zhang.
— Na verdade, ele possui altas taxas de cura. O prognóstico geralmente é
positivo , pois é uma forma de linfoma que responde bem aos tratamentos.
— O homem fala com a voz um pouco mais baixa agora. — Minha querida,
sei que é duro um médico dizer isso a alguém… Mas, não se compare à
Sthela. São casos extremamente diferentes.
Ar volta a preencher meus pulmões, de novo e de novo. Fluidamente.
Meu coração continua acelerado, mas minhas mãos param finalmente de
tremer.
Meu rosto arde — arde muito.
Eu sei o que é isso… é a vontade de chorar, que estou segurando como
uma louca, como se a minha vida dependesse disso.
Não me comparar à Sthela…
Como sou egoísta por pensar que estou feliz pelo meu prognóstico não
ser negativo.
Tenho chances.
Meu pai acaricia minhas costas ternamente. Isso me faz lembrar de
quando eu era criança e ele fazia o mesmo quando eu me machucava e
corria ao seu encontro para que ele pudesse me acalmar. Algumas coisas
nunca mudam.
— Qual o próximo passo agora, doutor? — pergunta papai.
Durante diversos momentos, meus pais se mantiveram em silêncio,
acredito que tentando processar a avalanche de informações tenebrosas que
se lançou sobre nós em tão pouco tempo. Não os culpo. Sou a única filha
que meus pais têm, e eles possuem todo o direito de sentir medo por mim.
Minha mãe aperta minha mão. Um aperto leve, confortável.
Em contrapartida, meu coração dói. Grita em meu peito.
O que o senhor disser, nós faremos! O tratamento que for, nós
pagaremos assegura mamãe, acariciando o dorso da minha mão com o
seu polegar.
Eu os amo com todas as minhas forças.
O médico respira fundo, como quem escolhe cada palavra com cuidado.
Agora que temos a confirmação do câncer de Hodgkin clássico,
subtipo esclerose nodular, precisamos seguir para a próxima etapa
explica, entrelaçando as mãos sobre a mesa. Antes de iniciarmos o
tratamento, vou solicitar alguns exames complementares. Eles vão nos
mostrar a extensão da doença e avaliar se seu coração e seus pulmões estão
preparados para a quimioterapia.
Ele me lança um olhar sério, consciente do peso da notícia.
Os exames indicam que, além do linfonodo aumentado no pescoço e
da massa mediastinal que vimos no raio-x, alguns linfonodos na região
abdominal também estão afetados. Precisaremos planejar a quimioterapia
considerando toda a extensão da doença.
O médico se levanta, arrastando a cadeira e produzindo aquele barulho
irritante que sempre me dá vontade de fechar os olhos.
Não vai ser fácil, Esmay diz, com a voz firme, mas não fria.
Você precisa ser forte e focar em você e no seu tratamento. Estaremos
juntos a partir de agora. Assim que tivermos os resultados, marcamos o
início do primeiro ciclo da quimioterapia.
— Obrigada.
É tudo o que meus lábios conseguem dizer.
Juntos… Na luta contra o câncer?
Isso é inspirador, doutor Zhang, papai e mamãe. Mas, caso essa cruzada
errado e o câncer se torne um vilão impossível de derrotar, as coisas se
complicarão somente para mim. Então, por mais que essas palavras sejam
bonitas, eu me sinto só. Sem ninguém para me salvar ou lutar ao meu favor.
Sou eu contra esse tipo diferente de Golias, que parece pesar mil
toneladas e cheirar a tudo, menos coisa boa.
Ninguém pode me tirar disso.
Nem mesmo meu cavaleiro de armadura branca.
Sou só eu.
Entretanto, afasto todos esses pensamentos para o fundo da minha mente
abalada. Faço isso com frequência, afinal. É uma das minhas habilidades
mais… bem, mais úteis.
Olho para mamãe e papai. Eles parecem confiantes. Doutor Zhang não
desvia os olhos dos meus. Acho que ele também tem de que posso lidar
com isso.
Ok. Ok. Posso mentir, então.
— Estaremos juntos, sim.
É tudo o que digo, e os três abrem um belo sorriso. Um sorriso que,
infelizmente, não alcança os olhos. Eles sequer sabem, mas eu percebo. Eu
presto atenção a tudo. Até mesmo em como eles obscenamente se enganam.
Insistem em acreditar. Acreditar em uma mentira.
Faço o mesmo com esse sorriso.
CAPÍTULO DOIS
As três mosqueteiras
“Um por todos e todos por um.”
Alexandre Dumas, Os Três Mosqueteiros
Cada vez que fecho os meus olhos , tento afastar para longe os burburinhos
dos últimos dias de aula na Universidade.
As vozes martelam em meus ouvidos: insistentes. Covardes.
Meus outrora colegas de curso, que participaram de inúmeras
apresentações de seminários comigo, que insistiam em fazer, ao final de
cada ano, um amigo secreto em que sempre alguém saía com um presente
muito duvidoso como um kit de sabonetes ou algo assim… Meus
colegas, que adoravam comentar o quanto era engraçado e estranho o fato
de eu ser uma pessoa introspectiva e, ao mesmo tempo, tão divertida.
Meus companheiros de curso.
Os mesmos que fizeram para mim um aniversário surpresa de 23 anos e
que se empenharam para me presentear com coisas legais e que eram muito
a minha vibe — como o box de luxo em inglês de Jogos Vorazes, um toca-
discos com alguns vinis especiais e a coleção em DVD de O Poderoso
Chefão.
Droga! Meus colegas… Agora se transformaram em “especialistas” no
meu tipo de câncer.
Eu curso Cinema e Audiovisual na Universidade Federal de Juiz de Fora
(UFJF) e, a meu ver, é peculiar a ideia de que informações sobre o linfoma
de Hodgkin, subtipo esclerose nodular, façam parte do arcabouço
intelectual da maioria dos alunos do meu curso. Ainda me pego pensando
em como, após o diagnóstico em setembro, tentei frequentar a universidade.
No entanto, os murmúrios das pessoas à minha volta me deixavam
desconfortável.
Não conseguiam mais me olhar para além do meu diagnóstico?
Era só o câncer o que viam?
Então, tranquei o curso e me vi obrigada a voltar a morar com os meus
pais, em Belo Horizonte. Pelo menos até finalizar o tratamento. Não que os
meus pais estivessem desapontados com a filha sendo nada menos do que
uma covarde por trancar a universidade e sair correndo como uma bebê
chorona que perdeu o brinquedo. Eles estavam felizes por eu voltar a morar
com eles e por aceitar toda a ajuda, o amor e o dinheiro que tinham para
oferecer.
A verdade é que eles são seres humanos incríveis e completamente fora
da curva no quesito “pais”. Se existisse uma premiação para melhores pais
do ano, ocupariam o primeiro lugar no pódio.
Eu queria ter o poder de impedi-los de passar por isso. É terrível
presenciar a única filha deles numa luta contra o câncer.
Meus queridos pais foram pegos de surpresa pela notícia, que o dia em
que me acompanharam ao consultório do doutor Zhang, numa segunda-
feira qualquer, foi exatamente o momento devastador em que o chão sob
seus pés se transformou em areia movediça. Eles não tinham ideia dos meus
sintomas estranhos. Nem mesmo do desmaio na universidade. Não sabiam
de nada. Isso foi cruel da minha parte.
Culpada!
Os sintomas começaram no início de agosto.
Eu estava tão esgotada das provas da faculdade que sequer pensei na
possibilidade de estar doente. Atribuí o cansaço incomum e até mesmo os
episódios de febre leve à rotina apertada. No início de setembro, o que eles
chamam de sintomas B piorou : suores noturnos que me faziam trocar a
camiseta no meio da noite, febres vespertinas sem motivo aparente e perda
de peso sutil, mas progressiva, que fez com que Ludmilla notasse que havia
algo de errado comigo.
O episódio de desmaio na universidade veio no final de setembro, para
complementar esse show de horror , e foi o suficiente para fazer Milla
minha melhor amiga, quase médica ligar o alerta no seu cérebro de nerd
e me obrigar a fazer uma consulta. Na primeira semana de outubro, passei
com o Dr. Zhang. A biópsia confirmou: linfoma de Hodgkin clássico
subtipo esclerose nodular.
E como se isso não fosse o bastante, a vida decidiu brincar comigo mais
um pouquinho. Em meados de outubro, o PET-CT — um exame que mostra
onde o câncer está ativo no corpo, destacando as áreas em que as células
usam mais energia revelou linfonodos comprometidos: cervical,
mediastinal e abdominal.
Estágio III.
Ok. OK. Até aqui, uma montanha-russa que só desce.
No final de outubro, meu médico fez avaliações cardíacas e pulmonares,
planejou a quimioterapia e, com um olhar sereno e confiante, me deu
expectativas de remissão.
Remissão…
Cura.
Minha vida de volta. Era tudo o que eu queria.
Sendo assim, acreditei . Confiei.
Antes de atender aos pedidos insistentes dos meus pais e me mudar para
Belo Horizonte, onde, de acordo com eles, eu poderia me tratar em uma das
melhores clínicas e com um respeitável oncologista o doutor Zhang
passei alguns dias no meu antigo apartamento (um dos muitos imóveis do
meu pai), em Juiz de Fora, que ele gentilmente cedeu e que eu dividia com
as minhas duas melhores amigas: Sthela e Ludmilla.
Me mudei para Juiz de Fora três anos para cursar bacharelado em
Cinema e Audiovisual, que sempre foi o meu sonho de criança. Lá eu tive o
prazer de conhecer Sthela, após um ano vivendo a fase mais introspectiva e
sem sal de toda a minha vida. Eu a conheci no segundo ano da faculdade,
enquanto fazia cosplay de Carrie, A Estranha. Não que eu sofresse
bullying e, para me vingar, desenvolvesse poderes telecinéticos e matasse
todos. Não era isso. Eu era fechada e tímida demais. Calada ao extremo.
Na faculdade de cinema, isso pode ser um problema.
Sthela surgiu para me tirar desse limbo de esquisitona, e rapidamente nos
tornamos almas gêmeas, inseparáveis. A amizade com Ludmilla a nerd
do nosso grupinho veio depois, quando ela derramou sem querer um
copo de chá gelado na minha blusa predileta. Meses depois, descobri que
chá gelado, sabor Bubble Mix, era uma de suas bebidas favoritas da vida.
O quase afogamento com chá gelado foi tão inesperado para mim e
desconcertante para ela, que, na intenção de se mostrar arrependida, Milla
disse que pagaria a lavagem da minha camiseta e que ela ficaria perfeita
novamente. Após alguns segundos, sugeriu que poderia lavar a blusa para
mim no banheiro feminino da universidade e que eu me surpreenderia com
o quão boa ela era com produtos químicos e limpeza de manchas.
Muito nerd.
Fiquei tão chocada por conhecer uma pessoa claramente inteligente,
engraçada e com pensamentos tão genuínos e, sem sombra de dúvidas,
acelerados, que a minha única reação inicial às suas sugestões questionáveis
foi erguer uma sobrancelha escura e, logo em seguida, sorrir.
Abri um sorriso para ela, que retribuiu. Sthela apareceu uns dez minutos
depois com uns bolinhos de chocolate para a discussão do livro O Sol é
Para Todos, do nosso clubinho do livro com impressionantes duas
participantes: eu e ela. Convidamos Milla para ir conosco, e ela logo
aceitou.
Naquele dia, nós três fomos a um café superfaturado e conversamos
sobre as nossas vidas, interesses amorosos, desejos para o futuro, medos,
frustrações e um milhão de outros aspectos da vida de jovens adultas.
As conversas se tornaram tão intensas e, ao mesmo tempo, desconexas,
que, quando percebemos, falávamos sobre Augusto Nogueira, um garoto
melequento e loiro que fazia bullying com Sthela no ensino fundamental e
que ela, até hoje, não superou.
É engraçado pensar que, desde aquela tarde qualquer em que uma garota
de 1,80m de altura, com cabelos crespos volumosos, uma pele negra
lindíssima repleta de tatuagens e um sorriso tão perfeito quanto o resto do
seu rosto me deu um banho de chá gelado e aceitou, de bom grado, fazer
parte de uma tarde com duas estranhas… minha vida social mudou
drasticamente. Porque Milla e Sthela eram tudo de que eu precisava.
Naquele mesmo dia, fizemos um grupo no WhatsApp, e isso foi mais que
suficiente para desencadear uma discussão sobre qual seria o nome do
grupo. Sthela sugeriu que fosse As Três Mosqueteiras, ao que Milla se
recusou, insistindo que seria melhor se fosse um nome mais original, como
o do seu desenho animado favorito da infância — As Três Espiãs Demais.
Antes que as duas agarrassem os cabelos uma da outra naquele café
chiquérrimo, repleto de pessoas que nos encaravam mais do que o
normal, eu não me abstive da discussão e reivindiquei o voto de Minerva.
Escolhi As Três Mosqueteiras, mas só porque sou fã de Alexandre Dumas.
E, nesta tarde de uma sexta-feira qualquer as duas se tornaram minhas
melhores amigas.
Por essa razão, foi duro quando Sthela descobriu, alguns meses, o
câncer de pâncreas. Quando foi diagnosticada, estava muito avançado.
Não gosto de reviver aquele dia; o corpo lembra antes da mente. Ainda
sinto, no fundo da língua, o gosto amargo que subiu quando ela disse a
palavra câncer o dela , tão agressivo, tão rápido.
Naquele dia, não sei bem como aconteceu. Em um segundo, Sthela nos
contava sobre a doença dela e, no outro, eu corria para o banheiro,
tentando expulsar tudo que tínhamos comido horas antes.
Na época, achei que tinha o estômago fraco para notícias fortes. Hoje,
vivendo o meu diagnóstico, entendo que não era isso. A verdade é simples:
eu não estava preparada para ver uma das pessoas que mais amo enfrentar
aquele tipo de inferno. Porque enfrentar um câncer é uma batalha cansativa.
E, no caso dela, era ainda mais cruel.
Acompanhar a luta de Sthela de perto ver as forças diminuírem, ouvir
que o tratamento não estava funcionando, sentir o desespero quando ela se
agarrava ao seu gatinho Cato para não desmoronar foi como assistir
alguém que você ama se apagar aos poucos. Às vezes ela dizia que não
tinha esperança.
E eu entendia.
Ver uma amiga como Sthela passar por isso dói como lâmina entrando
devagar.
Ninguém deveria enfrentar algo assim.
Ela, menos ainda.
Quando penso na Sthela com medo de perder a luta dela , sinto meu peito
apertar. E, agora que carrego a minha , o medo cresceu. Medo por nós
três.
Como vai ser se o nosso grupo se desfizer?
Como vai ser para a Milla se acabar perdendo duas de suas melhores
amigas?
Será que ela vai chorar?
Nunca vi a Milla chorar.
Será que ela vai sofrer?
Claro que vai. Que pergunta mais imbecil!
Eu espero que ela seja forte. Porque, no fim, parece que estamos
perdendo.
Eu e Sthela estamos perdendo para o câncer cada uma à sua maneira,
mas perdendo. Disso eu sei.
CAPÍTULO TRÊS
Por favor, me salva, Katniss!
“A esperança é a única coisa mais forte que o medo.”
— Presidente Snow, Jogos Vorazes, Suzane Collins
Isso não está dando certo!
— Ok, mãe. Agora me fala uma coisa que eu não sei?
— Esmay… toda essa situação é embaraçosa.
Eu a encaro por alguns segundos e depois desvio o olhar. Ela parece não
se importar. Sendo bem sincera, mamãe nunca parece se importar com a
minha indiferença velada.
Isso foi longe demais pondera, irritada, um dos pés batendo no
chão de porcelanato recém-polido num tique nervoso.
Mãe, você está falando alto demais. Quer logo um megafone?
repreendo-a.
Ela bufa e prende os cabelos cacheados e limpos em um coque
improvisado. O cheiro suave do shampoo — o mesmo que uso chega até
mim.
Mamãe está mais de vinte minutos caminhando de um lado para outro
na sala de infusão, como se sua vida dependesse disso. Como se, para o
sangue circular e o coração não parar, ela precisasse cumprir esse ciclo de
vinte passos por minuto. Os saltos agulha vermelhos fazem toc, toc a cada
passo.
Vai me deixar maluca desse jeito.
Ela desliza de uma extremidade a outra da sala com as mãos na cintura
— postura rígida e, mesmo assim, absurdamente elegante.
Ela é uma das mulheres mais atraentes que vi. Meu pai também não é
de se jogar fora. Mas é perfeitamente compreensível que toda a beleza que
as pessoas insistem em ver em mim venha dela.
Somos muito parecidas sou sua versão mais jovem. Obviamente, uma
versão menos comunicativa, mais séria, mais indiferente às vezes. Mas
ainda assim, uma versão.
Meu cabelo é uma das primeiras coisas que as pessoas notam. Os poucos
caras com quem saí sempre o elogiavam: cacheado, volumoso, cheio de
movimento, com cachos definidos que moldam meu rosto e dão a ele um ar
vivo.
Meus traços delicados e os olhos castanhos também vieram da mamãe. E,
para não dizer que meu pai ficou de fora na divisão genética, admito que o
cromossomo Y dele fez sua parte ao me dar essa pele quente e uniforme.
Uma contribuição pequena, mas estatisticamente relevante.
O sorriso também. Como pude me esquecer? Devo a ele.
O corpo esguio, naturalmente elegante, com curvas suaves e
proporcionais, eu puxei da mamãe. Resumindo: sou a soma dos dois — mas
muito mais parecida com ela .
Dona René me observa com os olhos semicerrados, um quê de desafio
pairando em seu rosto belo.
Ah, mãe. Eu sou muito mais teimosa do que a senhora imagina.
Isso não está dando certo repete, dessa vez com mais ênfase. E não
paro de pensar que talvez ela esteja certa.
Fecho os olhos e passo as mãos pela manta macia e esterilizada — espero
que sim. Mas claro que sim. Disponibilizada pela clínica.
Aconchegante este lugar.
É quase irônico dizer que uma clínica oncológica é acolhedora quando,
na realidade, existe uma dúzia de pessoas a poucos metros daqui lutando
contra o câncer.
Ainda assim, os profissionais se esforçam para que a nossa estadia
apesar de curta, em alguns casos — seja agradável, dentro do possível.
Afundo-me ainda mais na poltrona creme e estico as pernas no apoio. Do
canto do olho vejo meu MacBook, os fones e o Kindle sobre a mesa lateral
de madeira.
Todos inúteis no momento.
Não sei se consigo ouvir música, mesmo que seja The Cranberries
minha banda favorita nem escrever no meu diário ultra escondido, como
se fosse uma agente secreta do FBI. Muito menos reler Jogos Vorazes pela
milésima vez. Nunca sai de moda, né?
Na verdade, não sei se consigo me concentrar em nada.
Às vezes sinto a cabeça girar e, mesmo sentada nessa poltrona mais
confortável que as do meu antigo apartamento em Juiz de Fora, não consigo
racionalizar meus pensamentos. Parece que meu cérebro é feito de algodão.
— Está me ouvindo, Esmay? — pergunta minha mãe.
Ela não parece se importar com a presença da enfermeira. Não que seja
esnobe: está apenas nervosa demais com toda essa confusão e não consegue
ser gentil. Ao menos não comigo .
A enfermeira, Simone, veio pela segunda vez checar a velocidade da
bomba e o frasco de dacarbazina — não tira os olhos dele.
Dacarbazina é um dos medicamentos do protocolo ABVD. Um
quimioterápico que danifica o DNA das células do linfoma e impede que
elas se multipliquem. Ela arde. Arde mesmo. É lenta porque, se correr mais
rápido, minhas veias literalmente reclamam.
Simone me observa por alguns segundos.
Parece ter seus vinte e poucos anos. Pele negra, cabelos cacheados com
mechas vermelhas presos em um coque perfeito. Os olhos tão escuros que
mal diferencio a íris da pupila. Uma das enfermeiras mais gentis daqui.
Sempre conversa comigo sobre livros e música quando pode.
Ela é muito bonita. Poderia facilmente ser modelo.
— Qualquer náusea diferente, me chama — orienta com voz suave.
— Obrigada — respondo. Ela sorri e se afasta.
E então começa a guerra fria de olhares entre mim e minha mãe.
Eu queria pegar o Kindle, ler até o fim da infusão que pode durar
mais uma hora, talvez uma hora e meia e fugir mentalmente para Panem
. Mas mamãe está irredutível. Quer falar. E vai falar. Agora.
Foi mal, Katniss Everdeen.
Hoje não será o dia em que vou te ver irritando o escroto do Presidente
Snow pela septuagésima vez.
— Posso te fazer uma pergunta, Esmay?
Agarro o Kindle e os fones. Por favor, me salva, Katniss!
— Você vai… me responder?
— Você ainda vai fazer — digo.
— O quê? — Ela franze a testa, confusa, e logo o semblante irritado volta
ao normal.
Caso eu diga que não quero responder explico —, a senhora vai
perguntar mesmo assim. Então vá em frente. Pergunte.
Ela se aproxima com agilidade. Quando percebo, está a centímetros do
meu rosto. Observo o soro descendo pelo Port-a-Cath. Primeira dose do
segundo ciclo da quimioterapia.
Esmay Elizabeth.
— Ah, mãe!
Ela revira os olhos. Minha mãe é teimosa e astuta. Eu também sou.
Aprendi com ela.
— Você devia contar — adverte, com as mãos apoiadas na cintura.
Bufo e balanço a cabeça. Ela repete a frase como um mantra. Sua
obstinação é impressionante e inspiradora até. Em qualquer outro dia, seria
uma cena quase épica de vê-la defendendo algo com tanta força.
Só que hoje não é um bom dia.
— Tem que contar a elas, Esmay.
— Mãe… por favor. Pare.
Ela resmunga algo como “você não pode ser tão egoísta, né?”.
Nem levanto os olhos.
Releio o mesmo parágrafo do livro Em Chamas , catatônica um
adjetivo preciso para meu torpor.
É a parte em que Katniss visita o Distrito 11 e encara os familiares de
Rue e Thresh.
Rue — tão jovem, tão doce.
E ainda assim, Katniss não pôde salvá-la.
Lamento por Katniss, por Peeta, por Rue. Deslizo os olhos pela cena em
que a presença da família dos tributos mortos pesa sobre Katniss como uma
ferida que não cicatriza.
A tristeza da mãe de Rue, dos irmãos, é viva, queimando devagar e
Katniss se sente pequena e completamente impotente. Tudo que fez parece
insuficiente diante daqueles olhos que ainda procuram a filha no mundo.
Uma dor lenta.
Uma dor conhecida. Terrível.
E então me pego pensando: por que diabos estou sofrendo por
personagens fictícios quando minha vida é uma tragédia grega em
andamento?
Você já não tem problemas demais, Esmay ?, penso.
Finalmente olho para mamãe. Seus olhos castanhos, iguais aos meus,
observam meu rosto. Um sorriso fraco aparece em seus lábios pintados de
vermelho-vinho. Murmuro um “desculpe”, meio desajeitado. Ela acena com
a cabeça.
Preciso parar de ser imbecil com as pessoas ao meu redor.
Preciso parar de ser idiota com os meus pais.
Com minha mãe.
Só… preciso parar.
Ela desliza as mãos pelos meus braços nus e eu fecho os olhos. Respiro
fundo uma, duas vezes.
Ela massageia minha bochecha com o polegar. Olho pelas janelas amplas
da sala de infusão. Quero tocar as rosas do jardim fora. Respirar o ar
úmido, sentir cheiro de terra molhada.
Está chovendo. Ah…
Quero sentir as gotículas na pele, no cabelo.
Mas não posso. Preciso ficar aqui enquanto meu corpo recebe outra
enxurrada do protocolo ABVD.
O Dr. Zhang explicou que, para o meu tipo de linfoma clássico,
subtipo esclerose nodular, estágio III esse é o tratamento padrão. Quatro
medicamentos que trabalham juntos para destruir as células espalhadas pelo
mediastino, pelo pescoço, pelo abdômen. Funciona muito bem na maioria
das pessoas, é o mais eficaz para controlar e, com sorte, curar.
Mas cada ciclo leva o corpo ao limite: cansa, corrói o estômago, causa
alopecia, rouba o ar.
Rouba até a esperança — se eu não me policiar.
Estou no segundo mês dessa guerra química e parece que cada gota
entrando pelo Port-a-Cath arranca um pedaço de mim.
E, por Deus, se minha mãe continuar com o discurso de que devo contar
para as minhas duas melhores amigas sobre o diagnóstico, sou capaz de
arrancar todos os fios do meu cabelo antes mesmo que a químio faça isso
por mim.
Esmay, eu espero que você me perdoe pelo que fiz diz ela, ainda
acariciando meu rosto. Prende uma mecha atrás da minha orelha. Para ela,
ainda sou uma garotinha. A sua garotinha. Sei que não tenho o direito
de me intrometer na sua vida ou decidir por você, coisas que você tem plena
capacidade de decidir sozinha.
Franzo a testa e mordo a parte interna da bochecha.
Onde ela quer chegar?
Não quero que você se arrependa de uma escolha estúpida. Então eu
tomei a frente.
Tomou a frente? Eu não… gaguejo. Ela tira a mão do meu rosto.
Uma sirene dispara na minha cabeça. Não. Ela não fez isso. — Mãe…
Respiro fundo.
— O que você fez?
— Fiz o que era certo.
Mãe… Tento me levantar, mas ela coloca as mãos nos meus
ombros e me guia de volta para o encosto. O mundo gira, as luzes piscam.
— Você não tinha esse direito.
— Eu sei — admite, com um fio de voz.
Sabe? Sabe mesmo? pressiono. Eu precisava de mais tempo.
Só isso.
— Filha, o seu tempo é precioso. Não desperdice.
Meu Deus, mãe! Você não tinha o direito de fazer isso. A escolha é
minha! esbravejo, fazendo um movimento com os braços que me faz
ficar tonta. — Era minha escolha. Minha decisão.
Ludmilla e Sthela têm o direito de saber que você está doente,
querida rebate, e eu percebo que os seus olhos estão tristes. O rosto
cansado, as olheiras profundas. — Você entende o peso dessa decisão?
Sou uma pessoa horrível.
Entendo, mãe. Ela abre a boca para falar e depois fecha. Continuo:
Eu ia contar quando estivesse pronta e eu sei que parece ridículo,
escroto e egoísta da minha parte. Eu sei…
— Esmay…
Mas não pode continuar agindo como se eu não fosse uma
mulher adulta. Posso tomar decisões por mim mesma, sobretudo as difíceis.
Não pode sair por assumindo a frente das minhas coisas. Precisa me
deixar resolver minhas próprias questões sozinha, mãe!
Filha, você está na primeira rodada do segundo ciclo de
quimioterapia pondera. Percebe isso? se passaram quase dois
meses desde o diagnóstico, e você ainda acha que não é o momento?
Balanço a cabeça, em irresignação. Ela me observa mais intensamente.
Os lábios franzidos denunciando o tamanho da sua cautela quando diz:
— Percebe o quão problemático é tudo isso?
Percebo, mãe.
Seria uma tola se não admitir que isso consome quase toda a minha
cabeça e se não consumisse, eu me preocuparia seriamente com a
integridade do meu sistema neural.
Mas sempre tem uma fagulha de vontade que me obriga a proteger os
sentimentos das minhas amigas. Por isso precisava preciso — de tempo.
Abro a boca. Nada sai. Pareço um robô danificado.
— Sinto muito, Esmay.
Ela solta minha mão. Sinto um aperto no peito difícil de suportar, e o
calor do seu toque reconfortante vai embora.
— Ligue para as suas amigas. Elas estão aguardando.
— Mamãe, eu…
— Você precisa delas mais do que nunca agora.
Uma lágrima desliza pela minha bochecha. Limpo com o dorso da mão.
Um soluço me sacode.
Minha mãe é uma mulher forte. Entretanto, sei que está sofrendo. Isso a
fez prescindir do que ela mais valoriza, que é a confiança que as pessoas
depositam nela. A que depositei nela. Passou por cima de toda a sua moral e
ética para tentar fazer com que sua filha doente e agora depressiva
enxergasse um mundo onde existam cores. Esperança.
Elas também precisam de você, meu amor sussurra. Por favor,
por favor, não se abstenha.
Ela me olha nos olhos mais uma vez, com uma feição que diz: “Tudo
bem. Vai ficar tudo bem.”
Sinto um frio intenso e paralisante quando ela se afasta antes que eu
perceba, como uma aparição.
Mamãe se retira da sala de infusão, onde a vida parece se comportar de
maneira intrigante. Os sons são mais altos, os cheiros mais fortes, o
perfume de lavanda oriundo do desinfetante usado mais cedo na limpeza do
chão, o aroma de chá e café inundando minhas narinas, penetrando em
minha mente, transportando-me por alguns segundos para Tiradentes (a
cidade natal da minha avó paterna), onde vivi uma parte da minha infância
doce e afetiva… Todas essas sensações e sentimentos me fazem fechar bem
os meus olhos e suspirar profundamente.
Antes de sair pela porta de madeira, ela deposita um beijo molhado em
minha bochecha, a saliva se misturando com as nossas lágrimas salgadas.
Ela acaricia meus cachos, beija minha testa e então cantarola, me ninando
durante algum tempo, balançando o meu corpo com cuidado e amor.
Mamãe cantarola baixinho, uma canção que costumava cantar pra mim
quando eu era criança.
Sinto saudades da minha infância.
Quantas saudades sinto da minha infância em Tiradentes.
Olha, se você preferir, eu falo para elas não tocarem no assunto diz
ela baixinho, segurando com força a barra da sua blusa azul-marinho. Suas
mãos estão tremendo e eu não consigo parar de olhar… para isso . — Se for
necessário, eu nem toco no assunto. Você escolhe, Esmay.
Assinto com a cabeça.
Ela se afasta, deixando-me sozinha, divagando sobre as minhas opções,
afogando-me em minha culpa. Arregalo os olhos e pisco várias vezes. A
respiração pesa, presa na garganta como um nódulo. Quero dizer que ela
não tinha esse direito; no entanto, as palavras somem.
Fico abalada com a constatação de que a minha mãe escondeu muito de
mim. Me sinto invalidada e dilacerada por ela passar por cima da minha
escolha e contar sobre o meu diagnóstico sem o meu consentimento.
Abdicar do que ela mais preza, que é a confiança entre nós, diz muito sobre
as circunstâncias que estamos vivendo no momento.
Engulo a saliva e a revolta que estou sentindo, tentando não parecer
insegura. Não gostaria de tomar essa decisão agora, tão rápido. Minha mãe
me ajudou e eu sei disso. Mas isso não anula o fato dela ter tomado algo
muito valioso para mim, a minha escolha, e ter exposto a minha condição
médica antes que eu mesma estivesse pronta para fazer isso sozinha.
E mesmo que eu não queira admitir, parte de mim entende. Ela me
empurrou para um precipício do qual, cedo ou tarde, eu teria que me
aproximar.
Me obrigou a olhar lá embaixo e enxergar o abismo.
Mas pular ainda é comigo.
Fecho os olhos com força por alguns segundos e respiro fundo, sentindo
uma gama de sensações e sentimentos em meu âmago: raiva, mágoa,
tristeza, gratidão, confusão.
— Eu tenho medo — digo, por fim, com uma voz pequena.
O barulho das vozes se unem ao som da chuva fora e quanto mais
contemplo o teto com forro de gesso e as luzes amarelas que iluminam o
ambiente e dão um charme acolhedor a esse lugar, sinto meu peito
apertando, devagarinho.
— Preciso falar com as minhas amigas — sussurro.
Quem sabe assim… eu finalmente acredite que isso tudo é real. E não
apenas fruto da minha criatividade exagerada.
CAPÍTULO QUATRO
Não minta para mim, nunca.
“Três coisas não podem ser escondidas por muito tempo:
o sol, a lua e a verdade.”
— Buda
— Elizabeth?
Milla é a única que me chama de Elizabeth quando quer que eu preste
atenção.
— Elizabeth?
Ela me chama pela quarta vez, acho.
Não respondo.
Fico completamente paralisada. Meus olhos castanhos observam com
clareza as minhas duas amigas mais próximas na videochamada, mas não
consigo falar. Socializar. Minha língua se transformou em um emaranhado
de fios complexos e difíceis de desatar.
Eu sou uma bagunça.
— Elizabeth? — repete. — Travou a ligação, será? — pergunta a Sthela.
Sthela não diz nada, mas imagino que balance a cabeça em negação, ao
que Milla prontamente entende como uma deixa para tentar, de novo, uma
conexão comigo. Estou tão perdida que, neste momento, isso é tudo de que
preciso.
Esses últimos dias foram intensos e repletos de reviravoltas em relação à
minha condição médica. Optei por não ter muito contato com minhas
amigas, que estava escondendo delas a minha doença… e, por esse
motivo, sempre arranjava uma desculpa para não conversar por
videochamada. Assim, passamos quase dois meses tendo somente o prazer
de ouvir as vozes umas das outras. A de Sthela, nem sempre. Nas últimas
semanas, ela estava preferindo falar apenas por mensagem. Acho que
entendo o porquê.
— Esmay?
Essa voz… Sthela.
— Olhe para mim, querida.
Sthela sempre teve uma voz firme e gentil na mesma medida. Ouvi-la
chamar meu nome e me transmitir a segurança de que necessito…
presenciar sua calma e controle emocional, mesmo diante de tanta
pressão… vê-la resiliente uma de suas características mais marcantes
e me fazer entender que ela é forte, mesmo quando o corpo tenta convencê-
la do contrário… tudo isso me faz pensar que eu preciso enfrentar essa
situação que me causa medo, mas nunca permitir que o medo decida. Não
posso me dar ao luxo de fugir desse sentimento difícil que insisto em
guardar no meu coração e que me sufoca, me adoece. Tenho que encarar,
processar e seguir em frente.
Me deixe olhar para você diz, com uma voz trêmula. Ver seus
olhos
Meu coração se estilhaça. Como chegamos a isso?
E então, como se fosse mágica, uma das boas, meus olhos se concentram
em um ponto fixo na tela. Eu a vejo. Tão frágil.
Olho para ela. Olho de verdade.
O sorriso que abri por alguns segundos se dissolve quando contemplo: os
olhos azuis límpidos e grandes, apagados, como se tivessem perdido todo o
brilho. Os lábios estão brancos, e a pele pálida se opõe ao vermelho sangue
do papel de parede logo atrás de sua cabeça. Dói na alma quando observo
suas bochechas, antes angulosas e coradas, agora com os ossos mais
evidentes. Ela usa um lenço em um tom de azul-claro, que combina com a
cor de seus olhos. Sthela ouve baixinho uma música muito parecida com Up
The Junction , de Squeeze a música tema do nosso trio. A voz do
vocalista me transporta para uma lembrança distante: o dia em que ouvimos
a música juntas no nosso antigo apartamento. Considero aquele um dos
momentos mais especiais da minha vida.
Ela continua me encarando, assim como Milla, como se pudessem ouvir
o zum-zum-zum sem nexo da minha cabeça. Um silêncio se instala entre
nós, e era mesmo de se esperar que algo assim acontecesse.
— Me desculpa — soluço, escondendo o rosto.
Sinto uma pontada no meu Port-a-Cath e penso ter machucado.
Não. Foi impressão minha. Mas sinto uma dor lancinante no peito e o
peso do mundo nos meus ombros, me obrigando a curvá-los. Um buraco no
meu estômago se forma, como se fosse me partir ao meio. Respiro fundo,
mesmo de forma desajeitada, e com o rosto ainda entre as mãos trêmulas,
murmuro novamente: “desculpe, desculpe, desculpe.” Insistentemente.
Vergonhosamente.
As vozes das pessoas vindas do corredor, fora da sala de infusão, e o
barulho insistente de passos me conectam à realidade.
A náusea volta a se formar na boca do estômago e agora ouço, mais forte,
o barulho da chuva lá fora.
— Está tudo bem, Esmay — diz Sthela, tentando me tranquilizar.
Quero dizer que não está. Mas não consigo. Minha respiração está
entrecortada e a dor no peito continua me sufocando.
Continuo com o rosto entre as mãos, incapaz de encarar minhas duas
melhores amigas. Sinto vergonha por ser tão egoísta a ponto de esconder
meu diagnóstico. Elas mereciam saber, e eu insisti em não contar. Fiz isso
na intenção de poupá-las. Não queria ser eu a infligir sofrimento às duas.
Ainda assim, agora percebo que não fez diferença alguma.
Porque eu vejo. Eu sei e sinto no âmago do meu ser como um vírus
difícil de curar: ambas estão sofrendo.
Quero poder dizer a elas que vou ficar bem. Que esse meu novo jeito não
passa de uma reação ao tratamento e à doença. O fato é que nem eu mesma
pareço acreditar nessa falácia.
— Me desculpa — repito.
Ergo finalmente meu rosto, molhado pelas lágrimas, e devo estar
horrível, porque Milla está com as sobrancelhas tão levantadas que quase se
juntam à raiz do cabelo. Os olhos repletos de complacência… e ali
muito, muito amor .
Para, Elizabeth implora Milla, levando uma das mãos aos cabelos
cacheados. Sinto uma pontada no coração ao ouvir a falha em sua voz. Ela
está segurando o choro?
— É sério — insisto.
Milla balança a cabeça.
— Eu sinto muito. Muito mesmo. É só que…
Sthela não diz nada dessa vez.
Apenas me observa com as sobrancelhas franzidas e um olhar tão sereno
que esqueço o que estava dizendo. Ela é como uma noite de verão sob o
luar: tranquila, gentil.
Quero poder dizer que sinto muito por todas as mentiras.
Respiro fundo e agarro a manta macia que me protege do frio da sala de
infusão. Já estou quase finalizando a medicação. É agora ou nunca.
Antes que eu comece a explicar como tudo aconteceu e os motivos que
envolveram a minha decisão contraditória de esconder o câncer, a
enfermeira volta para a checagem padrão do frasco de Dacarbazina e, com
um sorriso gentil, anuncia que a infusão chegou ao fim.
Fico constrangida, porque, se antes minhas amigas tinham dúvidas sobre
a gravidade da minha doença, agora podem tirar suas próprias conclusões. E
Milla, como um modelo perfeito de aluna excepcional, certamente fará suas
próprias resoluções. Posso ver as engrenagens se movimentando em sua
mente de nerd: seus olhos escuros ficam vivos, calculando probabilidades,
diagnósticos…
O quanto a minha mãe contou? Não faço ideia.
Quem disse “frasco de Dacarbazina” e por quê? indaga Milla, com
as sobrancelhas franzidas.
— O-o quê? — rebato, ansiosa. Tenho vontade de arrancar os meus olhos
ao perceber que as engrenagens em sua mente se movimentam ainda mais
rápido, lubrificando lugares onde antes não havia movimento, chegando a
resultados, afirmações, constatações críveis. Corretas .
Alguém disse: “frasco de Dacarbazina.” Ela afirma, pensativa.
Eu ouvi perfeitamente. Quero saber quem disse e por quê, Elizabeth. Não
minta para mim. Nunca.
Ela é inteligente o bastante para deduzir. Na realidade, Milla é brilhante.
Uma quase médica de 23 anos que tinha o sonho de se especializar em
Oncologia. Desistiu quando viu crianças demais enfrentando o câncer e
morrendo. Sem parar. Nenhuma pessoa deveria passar por isso, sobretudo
uma criança.
“Eu não dou conta disso. Prefiro me especializar em Neurologia a ter que
ver isso todos os dias.” Foi o que ela confidenciou a mim e a Sthela.
Ludmilla sempre foi a mais racional do grupo: observa primeiro, fala
depois, e quando fala, acerta geralmente o ponto-chave. A gente brincava
dizendo que escolher Neurologia foi quase um destino natural. Depois que
ela desistiu da Oncologia pelo peso emocional, percebeu que precisava de
uma área em que sua inteligência pudesse brilhar sem a destruir por dentro.
A Neuro foi a escolha perfeita. Milla tem um fascínio indescritível pelo
cérebro humano e fala disso com brilho nos olhos.
É nostálgico lembrar…
Quando fazíamos algo que a irritava, ela nos ameaçava dizendo que, um
dia, abriria nossas cabeças para estudar nossos cérebros.
Affs. Macabra, né?
Eu sempre ria dessa piada — acho que era uma piada. Espero que sim.
Sthela costumava arregalar os olhos azuis de maneira exagerada. Era
divertido, admito. Bons tempos.
Sua mãe nos disse que você está doente. Não sei ao certo o quanto
você está doente a ponto dela ter que nos contar e não você. Isso tudo me
parece muito estranho. Porque isso, amiga? Eu simplesmente não
entendo… Ela não disse muita coisa, na verdade divaga Milla, com o
dedo indicador no queixo. Mesmo na videochamada, sou capaz de ver as
tatuagens de ramos de lavanda contornando seus dedos. Onde você está
agora, Elizabeth?
Sua voz se eleva, um tom mais agudo.
Observo Sthela, que está com aparência de alguém exaurida mental e
fisicamente. Essa conversa não é saudável para ela.
— Estou em um hospital — respondo, em voz baixa e contida.
Preciso ir com calma. Devagar. Por mim. Por elas.
Sei que esse lugar é um hospital. Passo, em média, 60% do meu dia
neles para não reconhecer um.
Ah…
Ela suspira pesadamente e remexe no piercing do lábio inferior um
comportamento típico de quando está nervosa.
— Passo muito tempo em contato com enfermeiras também.
Ela amarra os cabelos crespos em um coque desajeitado. Quando faz isso,
sei que chegou a uma conclusão. Adora fazer esse movimento nas suas
defesas de pesquisas científicas, que eu e Sthela tivemos o prazer de
assistir.
E posso afirmar com segurança que estou mais do que familiarizada
com… procedimentos padrão de… quimi…
Ela quis saber em qual sala, ou melhor, em qual ala você está
interrompe Sthela.
Então nossos olhos se encontram, dizendo milhões de coisas em poucos
segundos.
Fico catatônica, de novo. Se transformou em algo corriqueiro, ao que
parece.
— Esmay, por favor. Para — exige Sthela.
Parar?
— Sim.
Ela se remexe, ajeitando a postura na cama. Um gemido escapa de sua
garganta, e ouço o miado de Cato, que agora está perto dela, empoleirado
em suas pernas. Vejo a pontinha do rabo rajado.
— Não precisa tentar disfarçar — aconselha Sthela.
Eu me contorço na poltrona, ansiosa . Nervosa.
— Eu não…
Sim, você está . E eu , como alguém que sabe o que é, posso te
adiantar: isso não funciona. Não mesmo.
Ela tosse, levando as mãos esguias ao peito. Outro gemido.
A enfermeira me encara, com as sobrancelhas franzidas. Ela não aparece
na ligação e não tenho como fazer isso seguir por outro rumo.
Ela murmura um “sinto muito” baixinho e então se move para o campo
de visão das minhas amigas. Fala quase num sussurro — humana, sensível:
Prontinho, Esmay. Vou fazer o encerramento da infusão e retirar o
acesso do seu Port, tá?
Minhas amigas me observam em silêncio. Em seguida, Simone higieniza
o local com técnica precisa e faz o flush com soro fisiológico para garantir
que o cateter fique limpo. Então posiciona os dedos com firmeza.
— Pronto, respira fundo — orienta, com voz suave.
Sinto uma pressão rápida e, num movimento seguro, a agulha sai. Odeio
essa parte às vezes. Ela aplica uma leve compressão com gaze estéril e
coloca um curativo pequeno.
Seu Port-a-Cath ficou perfeito hoje, sem nenhuma resistência
comenta com um sorriso gentil. Olho para Milla e Sthela e vejo o queixo
das duas praticamente no chão. E lembra: em casa você não precisa
mexer no Port, tá? Nada de limpar, manipular ou trocar curativo sozinha.
Eu sei. Isso é sempre com eles. E, mesmo que eu quisesse, não
conseguiria. Não sou boa com isso .
Assinto com a cabeça, com um sorriso fraco. Ela retribui e vai embora.
Meu corpo começa a pesar com a fadiga típica da quimioterapia e o enjoo
persiste.
Maldita Dacarbazina!
— Me desculpa — sussurro, com a cabeça baixa.
Meu vocabulário agora se resume a apenas uma coisa: “me desculpa”,
pelo visto.
— Ah, meu Deus! Não… — diz Milla.
Sua mão livre a que não está ocupada segurando o celular cobre os
lábios no mesmo instante, abafando uma sucessão de “ah, meu Deus”,
enquanto seus olhos se arregalam como nunca vi. Nem mesmo quando ela
abriu o ateliê de macaron, que funcionava no quarto vago do nosso antigo
apartamento, e no primeiro dia de vendas recebeu tantas encomendas no
iFood que prometeu pagar um jantar para nós três no nosso restaurante
preferido.
Como eu não percebi isso? Como? Eu sou a pior amiga médica que
existiu na face da terra! grita. Eu… estava tão ocupada com a minha
própria vida e os meus problemas que não fui capaz de perceber que…
Milla começa a andar em círculos, sabe-se onde ela está. O lugar ao
fundo é repleto de peças de artesanato, quadros de paisagem pintados a
óleo, prateleiras com livros e velas aromáticas. Bem a cara dela mesmo.
Você não sabia, Milla. Como poderia? Eu menti sobre… soluço, e
as lágrimas começam a ganhar forma nos meus olhos castanhos. A visão
embaçada e o choro engasgado me fazem entrar em desespero. Me
desculpa! Eu sou uma amiga horrível, uma mentirosa, uma egoísta… então,
se vocês…
— Esmay — diz Sthela.
quiserem me odiar pelo resto de suas vidas e não suportarem mais
o peso que é a minha amizade, eu vou entender…
Elizabeth… — é a vez de Milla me chamar, com uma voz chorosa.
Porque eu sou chata e esquisita e às vezes não sou do tipo que gosta
de falar sobre sentimentos. E, se as pessoas me achavam um no saco
antes, e preferiam a amizade de vocês à minha, vão se surpreender com o
quanto eu aumentei ou melhor, quadrupliquei meu nível de antipatia
por pessoas, por conversas profundas…
Estou depressiva, eu acho.
Não. Tenho certeza.
Elizabeth.
Milla chama meu nome mais uma vez. Eu pareço não me importar, mas
me importo. Muito.
Solto uma risada fraca que faz minha garganta arder. Meus lábios tremem
copiosamente. Olho pela janela e, enquanto vejo a chuva molhando o
jardim de rosas, sinto as lágrimas molharem meu rosto. Sinto-me como uma
rosa sendo encharcada por essa água salgada. Uma rosa, com espinhos e
tudo.
— Então, se quiserem me odiar, eu juro que vou entender — finalizo com
a voz rouca e a garganta dolorida. Minha cabeça gira e, graças a Deus, estou
sentada. Minhas pernas estão moles, bambas, como geleia.
Elizabeth, você não precisa se desculpar. Nós somos suas melhores
amigas. Somos uma equipe, não somos? — pergunta Milla.
põe pra fora, amiga. Dessa vez é Sthela quem assume a
conversa. — Já chega de se esconder, Esmay. Diz.
Eu tenho câncer.
Foi rápido.
Quando eu disse.
Primeiro veio o medo e a ansiedade, por pensar que elas poderiam se
sentir magoadas por eu esconder o diagnóstico por tanto tempo.
Elas demonstraram várias expressões faciais em um curto espaço de
tempo: susto, medo… até beirou um ressentimento por alguns segundos, e
então eu vi . Estava lá, naquelas duas faces. Nos olhos azuis de Sthela, no
rosto delicado de Ludmilla: ambas compreendiam minha escolha. Não
havia pena, nem raiva. O que havia era a representação clara do mais
genuíno amor. Havia compaixão e gentileza — as duas ao meu alcance.
Como pude ficar tanto tempo sem isso? Como pude pensar que
conseguiria enfrentar essa luta sozinha?
Afinal, as mães sempre têm razão.
Eu preciso das minhas duas pessoas preferidas.
Para alguém que não gosta muito de pessoas, percebo agora: eu preciso
do apoio, da força e da companhia das minhas duas melhores amigas.
Na verdade, sempre precisei.
CAPÍTULO CINCO
Que letra de música horrível
Sozinho aqui na cozinha, sinto que falta algo. Eu imploraria por perdão. Mas implorar não é
minha praia.
Up The Junction — Squeeze
UM ANO ATRÁS
Mortas de fome.
Fome por macarons. Coisa fina. Eu e Sthela éramos isso: duas mortas de
fome por aqueles biscoitinhos coloridos, rechonchudos e deliciosos que
nossa brilhante amiga Ludmilla produzia no seu tempo livre, entre ser uma
heroína da medicina e da neurologia, uma atleta, melhor amiga e uma
maluca fissurada por alta confeitaria. Chique.
Que droga! Vocês vão acabar com todos os macarons antes mesmo de
eu finalizar o recheio? Parem já, as duas! — repreendeu Milla, entre dentes.
Eu e Sthela prendemos a respiração por alguns segundos, nos encarando.
No entanto, era inevitável. Uma guerra de recheio de chocolate começou,
porque as duas cuspimos tudo o que estávamos mastigando, tentando
segurar a risada.
Vocês são duas idiotas! Milla chacoalhou as mãos e apertou o laço
do avental. Vão sujar todo o meu ateliê desse jeito. Cuspindo todo o
recheio uma na outra. Vocês são nojentas. Um quilo desse chocolate que
vocês estão deliberadamente cuspindo fiquem à vontade, aliás custa
mais de cem reais!
Eu e Sthela continuamos nos encarando, as bochechas inchadas de tanto
segurar o riso.
— Sabiam? — perguntou, a ninguém em especial.
Ah! Suas duas riquinhas de merda! esbravejou, indo em direção ao
fogão para mexer o recheio de morango que estava fazendo.
Ei! Assim você me magoa digo, rindo, levando uma das mãos ao
peito e fazendo cara de dor. — Poxa! Não precisa ser assim tão malvada.
Milla revirou os olhos e bufou, segurando uma colher de pau que, por
Deus, eu esperava que não acertasse nossas cabeças.
Sthela e eu nos encaramos e, dois segundos depois, caímos na risada
novamente.
Milla é chata e mandona quando o assunto é o seu ateliê de macaron.
Vocês são nojentas repetiu Sthela, imitando o jeito mandão e
inflexível de Milla falar. Ela fez um biquinho enquanto dizia, esnobando
Milla: — Vão sujar todo o meu ateliê desse jeito!
Milla fechou a cara no mesmo instante.
Se vocês não pararem de encher o meu saco, vou expulsar as duas do
meu ateliê.
Sthela revirou os olhos e eu reprimi uma risada.
Quero acabar as minhas produções hoje o mais rápido que conseguir.
Tenho prova da Liga de Neurologia amanhã. É um absurdo o tanto de coisa
que eles cobram… e se as duas idiotas continuarem a bagunçar o ateliê,
estragarem o recheio de chocolate fazendo guerra de cuspe e
comerem os macarons que eu coloco na bancada… Ah, eu juro: vou matar
vocês eu mesma, abrir as suas cabeças de vento, estudar seus cérebros e
depois doá-los para a evolução da ciência.
Milla é tão inteligente e macabra. Na mesma medida.
Rá! pulei em sua direção e ela se encolheu, assustada ou… brava.
Os dois, quem sabe? Viva a ciência, as mulheres nas áreas STEM e todo
o avanço da neurociência! — gritei, com as duas mãos levantadas, enquanto
Sthela apenas sorria da cara engraçada que Milla fazia. O quê? Pode
fazer o que quiser com meu cérebro, amiga. Eu sou a maior defensora da
ciência neste recinto.
Ela ergueu uma sobrancelha, ao passo que Sthela falou algo como “ui,
Milla”, sorrindo. Não sei muito bem. Não me lembro.
Pigarreei depois de Milla dar dois passos em minha direção com os seus
1,80 metros de altura contra os meus 1,57 metros. Droga!
Recuei um passo e ela avançou mais dois. Assustadora.
Não antes de você corrigi. Eu quis dizer que sou a maior
defensora da ciência, depois de você. Claro!
— Você se acha bem engraçadinha, não é, Elizabeth? — perguntou Milla,
com a panela fumegante de recheio de morango em uma das mãos.
O vapor da panela se misturava ao ar frio do ateliê. O aroma doce do
morango inundou minhas narinas, assim como o cheiro cítrico do limão que
ela havia espremido para rechear uns macarons em tom de verde-oliva.
Lindos e saborosos.
Espero que ela deixe a gente lamber a panela depois.
Não acho, não provoco. Na verdade, eu sou bem sem
“gracinha”.
Ah, resmungou Milla, ao que Sthela completou: Esmay, você
é engraçada, sim. Seu senso de humor não é forçado, é só… excêntrico?
Dei de ombros, divertida.
Milla me dirigiu um sorriso sarcástico e então se ocupou em continuar a
sua produção de macarons, já que daqui a algumas horas teria que assumir o
papel de heroína da medicina de novo. A nossa heroína. Uma vida puxada,
uma rotina apertada, mas que eu sabia que ela amava.
Beleza, é o seguinte disse Sthela, sentando no banco de madeira
maciça e apoiando as mãos no balcão em que estavam dispostos os
macarons em diferentes tons. Minha cor preferida, sem dúvidas, eram os
macarons com sabor de limão. Eles tinham um tom de verde, e essa é minha
cor favorita. A gente quase terminando a faculdade e eu acho que
está na hora da gente bolar um plano.
Um plano? perguntei, enfiando na boca um macaron verde e
soltando um suspiro demorado. Mesmo sem o recheio, estava muito
gostoso.
Milla me direcionou um olhar do tipo “vou te matar se pegar mais um”, e
eu fiz um bico, fingindo estar triste.
Sentei-me no banco do outro lado da bancada, de frente para Sthela, que
se revezava entre acessar o Spotify e mudar a música que estávamos
ouvindo e escolher qual seria o próximo macaron que iria devorar. Milla
seguiu recheando-os e resmungando uma coisa ou outra sobre como ainda
faltavam muitos para ela produzir.
Tira a mão, Sthela! reclamou Milla, ao que Sthela deu um muxoxo
e um dar de ombros, teatral.
Ela deveria seguir carreira de atriz em vez de ser diretora, aliás. Mas era
o sonho dela e também o meu. Sonhávamos em sermos parceiras em
grandes projetos que nos fariam ficar muito famosas como diretoras de
cinema. Ah… não é impossível. E, mesmo que meus pais tenham muita
grana o suficiente para não saberem o que fazer dinheiro não compra
talento, compra oportunidades.
O talento, já tínhamos. Faltava a oportunidade.
Você está com os cotovelos praticamente grudados nos macarons de
morango!
Não não, sua chata. Caramba! exclamou Sthela. E
“praticamente” não é “totalmente”. Tem uma grande diferença, sabichona .
— Tá sim — retrucou Milla. — Meu Deus! Essa minha produção de hoje
não está nada higiênica. Sério. Culpa das duas.
Nossa ? — falamos em uníssono.
Milla revirou os olhos e passou a língua pelos dentes.
Adorava aquele apartamento, aquele quarto reserva que servia de ateliê e
o cheiro dos macarons, que podíamos comer quantos quiséssemos nos dias
em que Milla não estava de mau-humor. Óbvio. Era tudo perfeito. Nossa
vida era perfeita.
— Voltando ao assunto, Sthela.
Ela me encarou com um sorriso enquanto roubava um macaron rosa da
bancada. Milla acertou um tapa em sua mão e ela quase engasgou, com o
susto. Coitada.
Esse tal plano seria sobre o quê exatamente? perguntei, curiosa.
Eufórica.
Sobre continuarmos a morar juntas respondeu ela, com um sorriso
brilhante, de orelha a orelha, enquanto dava a primeira mordida no macaron
que havia roubado.
Seus cabelos pretos e lisos estavam com um novo estilo: um corte Hime
Cut um estilo de cabelo japonês tradicional que dispunha de franja reta
na altura das sobrancelhas e mechas laterais curtinhas, na altura do queixo,
contrastando com o resto do cabelo, que continuava longo. Uma hora ou
outra, ela sacudia os cabelos como uma cantora de rock famosa. Ela
continuou:
Quero continuar morando com vocês. Mesmo depois da faculdade. E
aí, topam?
Eu e Milla nos entreolhamos e depois olhamos para Sthela. Dois
segundos depois, nos entreolhamos de novo.
— O quê? — indagou Sthela, de olhos semicerrados.
Rugas quase imperceptíveis se formaram ao redor dos seus olhos azuis, e
as sobrancelhas escuras arqueadas deixaram o motivo da sua expressão
ainda mais óbvio: insatisfação.
Não acredito que, em um grupo com três pessoas que prometeram
amizade eterna e essa ladainha toda, eu fui a única que pensou a respeito.
Eu também já havia pensado muito a respeito. Não queria me separar das
minhas duas melhores amigas. Mas, depois que a faculdade chegasse ao
fim, trilharíamos rumos diferentes: Milla, com toda certeza, continuaria
avançando na sua carreira de médica e fazendo especialização em
neurologia e, quem sabe, até pós-graduação. Teria uma jornada árdua pela
frente, na qual teria que abdicar de muitas coisas. De uma coisa eu sei: ela
não abdicaria da nossa amizade.
Sthela tinha planos de mudar para São Paulo, porque haveria mais
oportunidades para a nossa área. Convenhamos, cinema não é como direito
ou medicina, que você consegue se virar em qualquer lugar e arranjar um
emprego. Precisaríamos estar em um estado onde fosse mais viável
trabalhar com isso.
Ir em busca de oportunidades.
Como eu disse, modéstia à parte, de talento nós entendíamos. Éramos
resilientes, nos arriscávamos em nossos projetos, tínhamos originalidade,
estilo próprio e muita dedicação. Mas isso não era o suficiente. Para ser
artista no Brasil, você precisa sempre de mais. Mais visibilidade, mais
público, mais coragem para ter sucesso ou fracassar e, principalmente, mais
e mais… oportunidade.
Não queria ter que depender da grana dos meus pais por mais tempo.
que, se eu quisesse sobreviver depois da faculdade com um bacharelado em
cinema e audiovisual… sejamos sinceros: teria que continuar recebendo a
ajuda deles. Assim como Sthela, que também recebia ajuda financeira dos
pais.
Não é uma ideia digo, por fim. As duas me encaram, ansiosas
pela minha opinião. Eu poderia falar com o meu pai… Se quiséssemos
morar mesmo em São Paulo, ele poderia nos arranjar um apartamento
semelhante a esse lá. Meu pai tem muitos contatos. E a gente não precisaria
se preocupar com a grana nem com alimentação…
— Esmay… — Milla me interrompeu, desamarrando o avental da cintura
e tirando os cabelos cacheados e volumosos da sua toquinha branca.
somos adultas. Eu sou adulta. Não pra ficar dependendo da
generosidade dos seus pais. A gente tem que conseguir se virar. Sozinhas.
Concordo.
Mas como eu e Sthela faríamos isso finalizando um curso que não tem
muito mercado no Brasil? Sim, Milla não tem culpa de termos cursado
cinema em vez de algo que desse grana rápido. Mas era o nosso sonho.
que até eu sabia que sonho não colocaria comida na nossa mesa.
A gente pode trabalhar enquanto não consegue algo na nossa área
sugeriu Sthela, e eu aquiesci com a cabeça. Milla levantou uma
sobrancelha. — Eu não tenho problemas com isso.
Nem eu. de boa com isso complementei, encarando Milla, que
olhava de mim para Sthela com uma cara que dizia “me engana que eu
gosto”. Tudo bem. É compreensível. A gente pode se virar sozinha. Nós
podemos fazer isso.
Certo. E de quê exatamente as duas princesas vão trabalhar em São
Paulo? Em algum shopping como vendedoras, na Crocs, ou será que
fazendo Subway? Ou talvez queiram trabalhar na praça de alimentação
servindo mesas?
Nós não respondemos.
Sério, meninas! Vida de CLT não é pra vocês. E outra: seus pais têm
grana. Usufruam disso a favor de vocês a todo custo. Mas não precisam
estender isso a mim.
Não é esmola, Milla argumento, irritada. Ela baixa os olhos.
Meu pai nos ajuda porque ele é assim e quer o melhor pra mim. Mas não
pense nem por um segundo que isso não se estende às minhas amigas. Que
não se estende a você .
Ela ainda não estava me olhando. Encarava um macaron rechonchudo,
em tom azul-bebê, que havia ficado um pouco disforme nas laterais. Em um
mundo repleto de macarons lindos e perfeitos, ele era a maçã podre, triste e
defeituosa. Sozinho .
Milla era extremamente perfeccionista, e eu sabia que esse macaron não
seria vendido para os seus clientes. Ela daria um jeito de se livrar dele.
Pega disse ela, oferecendo-me o macaron defeituoso e solitário.
Pra você. Come!
Estendi a mão para pegá-lo, ainda encarando minha amiga, que
permanecia com uma expressão indecifrável. O silêncio durou alguns
segundos, e meus sentidos se aguçaram ainda mais. O silêncio costumava
fazer isso comigo. Deslizei os dedos pelas laterais desajeitadas do doce e
senti as deformidades em contato com a minha pele. Inspirei o aroma
agradável dos macarons que estavam quase prontos no forno, e o cheiro
adocicado de morango ainda parecia preencher cada superfície daquele
cômodo da casa. Era agradável aquela sensação. Gostosa.
Mordi o primeiro pedaço e senti o sabor açucarado e delicado inundar o
céu da minha boca.
— Obrigada. — Ela sorriu. — Isso é uma metáfora, por acaso?
— Quê?
Sthela ergueu uma sobrancelha, e Milla continuava a me encarar, com as
mãos fechadas em punho no balcão repleto de doces.
Você não é defeituosa, Milla. Para de bobagem e deixa a gente se
ajudar. Não precisa ser durona o tempo todo. Eu quero declarei, com os
olhos brilhantes e um sorriso. Quero… continuar morando com vocês
até o momento em que cada uma construa a sua família.
— É isso que vocês querem, de verdade?
Milla olhou de mim para Sthela, e nós consentimos.
Tem certeza de que o seu pai concordaria com isso, Esmay?
indagou ela, ainda encarando os macarons como se eles pudessem
responder por mim. Digo… comigo e com a Sthela morando em São
Paulo, dividindo apartamento com você… e sendo, sei lá… sustentadas
por…
Milla a interrompi, suave. Meu pai não é esse tipo de pessoa,
sério. E ele não vai sustentar ninguém. Ele vai dar uma ajuda inicial, um
empurrãozinho. Chame do que quiser. Mas não vai bancar o nosso futuro
nem pagar as nossas contas pra sempre.
Ela respirou fundo.
E você sabe que a gente vai trabalhar, né? perguntou Sthela
rapidamente.
Com o quê? Ela franziu as sobrancelhas e pressionou os olhos com
a palma das mãos. De verdade, gente. Não quero iludir vocês. Vida de
CLT não é simples.
Sthela cruzou os braços, séria:
— A gente começa de baixo, como todo mundo.
E onde? Milla insistiu. Em São Paulo tem trocentas meninas
com diploma, igual a vocês, procurando um trabalho.
Sim, de fato concordei. Mas tem agência grande, produtora
grande, festival, edital, Netflix, Amazon… Olha, aqui em Juiz de Fora e BH
não tem metade disso, amiga.
Dessa vez, Milla me encarou. Um pouco tensa demais para o meu gosto.
Além disso… continuou Sthela o pai da Esmay pode ajudar a
gente a investir no nosso primeiro curta. Ele prometeu que, quando
chegasse a hora, nos patrocinaria. Meu pai também pode ajudar. E não seria
ele bancando a nossa vida, mas um projeto. Um só. — Ela sorriu, e os olhos
brilharam. O pontapé. A gente faz o curta, entra em festival, cria
portfólio. A gente consegue, não é, Esmay?
Eu assenti.
É assim que funciona no audiovisual, Milla. Todo mundo começa
produzindo um curta pra existir no mapa. Não é demérito, sabe… ter um
patrocinador.
Milla apertou os lábios e, num movimento furtivo, levantou-se do banco
onde estava, recolocando a sua touca nos cabelos cacheados para voltar ao
trabalho.
— E eu ? Onde entro nessa equação?
Você entra em São Paulo eu disse, sorrindo de canto e me
levantando também. Porque as melhores residências de neurologia do
país estão lá.
É, Milla Sthela também se levantou, fazendo barulho com o banco.
Você mesma vive dizendo isso. USP, Paulista, Santa Casa… Não é
basicamente, sei lá, seu sonho?!
Ela piscou, surpresa e eufórica na mesma medida.
— Eu sei que você consegue passar quando prestar a prova pra residência
— pontuei.
— Claro que consigo. Eu sou brilhante, não sou?
Sim. Ela era brilhante.
— Ok. Vocês têm razão. Faz sentido… ficar com vocês.
Meu peito aqueceu.
Então… é isso. Vocês duas podem tentar emprego em loja, shopping,
restaurante… qualquer coisa até conseguirem entrar em alguma produtora.
Sthela deu risada enquanto mudava a música no Spotify.
Eu preferiria morrer a trabalhar na praça de alimentação do Morumbi,
mas, né? O capitalismo obriga.
— Eu não tenho frescura — disse, e ela balançou a cabeça.
Milla respirou fundo e correu na direção do forno para retirar os
macarons que estavam prontos. O cheiro que veio dessas belezinhas…
uma delícia.
Tá. Se é isso mesmo que vocês querem e se estão dispostas a batalhar
mesmo, então eu topo!
O sorriso que brotou no rosto de Sthela e que se refletiu no meu foi
automático, quase infantil. Sthela contornou o balcão e correu em direção a
Milla, que havia colocado a travessa de macarons recém-assados no
balcão.
Quero continuar com vocês, meninas sussurrei. Até cada uma
construir a própria família.
Milla pegou um macaron, perfeito dessa vez, e colocou na minha mão
como se fosse um pacto.
— Então a gente vai juntas. Para São Paulo.
Sthela mexia no celular, distraída, até soltar um “ai, meu Deus…”
baixinho.
Ela virou a tela pra gente.
O Spotify mostrava o início familiar no teclado de “Up the Junction”.
— Lembra, Esmay?
— Ah, meu Deus! “Up the Junction”! — gritei. — Faz muito tempo que
não ouço essa música. Ela é estranha de um jeito muito bom.
Que música de letra esquisita disse Milla, com um sorriso cansado
nos lábios. — Gostei.
O cara perde tudo e fica sozinho por fazer escolhas ruins pontuou
Sthela. — A letra é bem melancólica, e a vida dele é cheia de reviravoltas…
todas ruins.
— Sim. Eu adoro essa música. Deixa tocando. Não tira, não — pedi.
Fechei os olhos, e a melodia da música me teletransportou para outro
lugar. Senti uma paz que nunca havia sentido. Foi bom.
Respirei fundo, como se essa sensação tivesse destravado alguma coisa
dentro de mim.
Então é isso, né? disse Sthela. A gente não vai deixar
ninguém… up the junction. Nunca! Seremos sempre a válvula de escape
umas das outras.
E, naquela frase, eu senti: era um pacto . E era sério.
CAPÍTULO SEIS
Essa é a pele de um matador, Bella.
“Eu não posso carregar isso por você… mas posso carregar você.”
— O Senhor dos Anéis
— Fala sério, Sthela!
— Quê?
A gente devia procurar outra coisa pra assistir que não sejam essas
porcarias sem sentido com sanguessugas pálidas e que brilham sob a luz do
sol — diz Milla enquanto suga o canudo do seu chá gelado.
É. Milla tem razão, como sempre. Mas Crepúsculo é a saga de filmes
predileta de Sthela. Droga! O que eu posso fazer? Só… me torturar
assistindo pela centésima vez. Porque é isso que boas amigas fazem:
permitem que os seus olhos sangrem assistindo a essa esquisitice que é
Crepúsculo.
Cala a boca, Milla! repreende Sthela, com uma voz áspera e fraca.
— Como sempre, suas opiniões sobre Crepúsculo são de muito mau gosto.
Vampiros… que brilham? Quem teve essa ideia e pensou logo em
seguida: “É. Acho que vampiros que brilham sob a luz do sol, ao invés de
vampiros que entram em combustão e morrem, seria muito mais
interessante”?
— Stephenie Meyer talvez?
— Eu sei quem escreveu Crepúsculo, Elizabeth.
Ah! Tudo bem. Só pra conferir.
— Pelo amor de Deus! É patético! — grita.
Infelizmente, Bram Stoker deve estar se revirando no túmulo neste exato
momento. Coitado.
Brilham como fadas digo baixinho, enquanto remexo na barra da
calça jeans.
Quê? pergunta Sthela. Não, Esmay… você também não. Não se
deixe contaminar pelo mau gosto da Milla.
Rá! Parece até piada. Você é de Crepúsculo e a pessoa com mau
gosto sou eu?
Ergo uma sobrancelha para fazê-la fechar o bico. A luz do quarto de
Sthela está fraca, o ambiente sendo iluminado apenas por alguns piscas-
piscas com luzes em tom amarelo, que vamos assistir a Crepúsculo.
Mesmo não estando tão claro quanto eu gostaria, sei que Milla consegue ver
a carranca no meu rosto.
Entretanto, isso não é o suficiente para fazê-la calar a boca.
Vampiros não deviam ser assustadores ? pergunta a ninguém em
especial, enquanto gesticula freneticamente com as mãos. Seu anel de
besouro brilha no escuro. Isso é uma vergonha. Sério! Não a fim de
assistir a Crepúsculo pela milésima vez, Esmay.
Sthela pigarreia baixinho e se força a dar um sorriso, divertida.
Você é sempre do contra, não é? debocha, e Milla ergue uma
sobrancelha escura. Sempre reclamando. Sempre. Seu nome devia ser
Maria das Dores.
Ela adora ser a protagonista! completo, e Milla se contorce ainda
mais, o rosto transformando-se em uma careta estranha. A vez de
escolher o filme é da Sthela. É assim que funciona a noite do cinema
democrático.
— Ah, fala sério! — resmunga Milla, e eu a encaro, séria.
Aliás, não foi você quem escolheu esse nome? querendo mudar o
nosso regime para uma ditadura, por acaso? — pergunto.
— É, sua fascista! — concorda Sthela, e eu abro um sorriso largo.
Milla não responde, mas revira os olhos como nunca a vi fazer antes. Tão
dramática.
Caramba! Certo. É a vez de Sthela escolher, eu sei. Mas, ainda assim,
segue sendo um filme horroroso e, apesar de você cursar cinema aponta
o dedo indicador na direção de Sthela —, isso não te impede de ter um
péssimo gosto pra filmes.
Pega leve com ela digo, e ela sorri descaradamente, mostrando os
dentes.
Claro. Porque você e os seus filmes eróticos são muito melhores, não
é, Milla? — retruca Sthela, e eu reprimo um sorriso.
— Uau! Você é tão…
Incrível? interrompe Sthela, e Milla faz uma careta, levantando o
dedo do meio.
Tão infantis.
Ok. É o seguinte: chega dessa discussão idiota e sem sentido. As suas
predileções cinéfilas não vão mudar em uma noite, então isso gesticulo
na direção das duas é contraproducente. Não adianta. Me viro na
direção de Sthela: — A gente pode assistir aos seus filmes.
Ela me encara, e seus lindos olhos azuis brilham, mesmo estando tão
escuro.
— Só… por favor. Vamos assistir à Lua Nova?
Sim. Eu prefiro o Jacob. Um milhão de vezes, e isso não é uma hipérbole.
— Não suporto mais a cara de fome do Eduardo.
É Edward.
— Eu sei.
Dou de ombros e lanço um sorrisinho cúmplice na direção de Milla, que
leva as mãos aos lábios, abafando uma gargalhada.
Tudo bem assistir a Crepúsculo e ver todas as cenas constrangedoras,
como a de Bella encarando Eduardo esquisito cara de fome Edward, ou a
cena ridícula em que ele diz: “Essa é a pele de um matador, Bella” Ok.
Tudo bem assistir a isso. Eu aguento. Mas, hoje não tô no clima. Prefiro que
o Jacob tenha um tempo de tela.
Sthela está com o controle na mão, navegando pelo catálogo da Netflix,
procurando o seu filme preferido da vida. Seus dedos longos digitam com
dificuldade, e, quando ela demora mais alguns segundos para achar a vogal
“o”, que completa a palavra Crepúsculo, eu a ajudo, tirando gentilmente o
controle de suas mãos geladas.
— Tudo bem — digo. — Deixa comigo, amiga.
Ela sorri.
Seus olhos se fecham quando ela tenta mudar a posição em que estava,
levantando um pouco mais a cabeça. Seu gatinho, Cato, está empoleirado
entre ela e Milla, ronronando e se lambendo hora ou outra. Ele não sai do
lado de Sthela, nem mesmo enquanto ela dorme. Parece que são feitos da
mesma matéria. Metade um do outro.
Ela tenta achar uma posição mais confortável, e alguns gemidos abafados
escapam de sua garganta. Eu e Milla tentamos ajudá-la ao mesmo tempo.
Só que eu me sinto um pouco exausta da quimioterapia. Ultimamente, tenho
tido falta de ar e tosse seca. Isso me deixa irritada. Milla me lança um olhar
que diz “deixa comigo. Relaxa, eu faço isso” , e eu aquiesço com a cabeça
e murmuro um “obrigada” para ela, que retribui com um sorriso.
Milla consegue ajudar Sthela a achar a posição que procurava, e ela
agradece.
A condição de Sthela piorou muito nos últimos dias.
Mesmo tendo sido quase impossível para Milla vir para Belo Horizonte
nos visitar, ela fez o que pôde. Largou os conteúdos que precisava estudar e
diversas outras coisas da sua vida corrida em Juiz de Fora. Eu havia falado
com ela alguns dias, informando-a de que a condição de Sthela estava se
complicando, e ela não hesitou em vir correndo nos ver e dar o seu apoio.
Eu as amo incondicionalmente. Somos as três, de novo. Estava com
saudades disso. De nós.
— E então… pode ser Lua Nova , Sthela?
Ela faz que sim com a cabeça, e ambas sorrimos.
— Ok. Vamos de Jacob, então, ao invés de Eduardo!
— É Edward, sua engraçadinha.
— Eu sei — afirmo, dando de ombros. — Mas isso é irrelevante.
Sorrio.
Ela solta algo que pode se configurar como um grunhido irritado ou até
mesmo o barulho de algum animal raivoso — e eu não saberia dizer a quem
pertence. Não importa. Ela parece confortável, segura de si e é a pessoa
mais resiliente que já tive o prazer de conhecer.
Eu sei, Sthela . Mas não consigo evitar tentar fazer você sorrir. Mesmo
exausta de lutar, você ainda é tão forte e corajosa. Amo isso em você.
Amo mesmo.
Cansaço e tosse seca.
Esses dois se tornaram meus melhores amigos agora. Caminham comigo
enquanto dirijo, leio — e releio — alguns projetos, ou quando tento subir as
escadas da clínica oncológica nos dias em que o elevador está cheio. Não
chegam a me derrubar, mas também não me deixam esquecer que estão ali.
Persistentes. Incômodos . Isso me atrapalha e também me irrita de uma
maneira com a qual não estou conseguindo lidar.
falou com o seu médico a respeito? pergunta Milla com a boca
cheia de bolo de cenoura, alguns dias antes da minha consulta com o doutor
Zhang. Não pode deixar passar nada, Elizabeth. Ele é seu médico. Vai
saber o que fazer.
— O que você acha que pode ser? — pergunto.
Ouço o barulho de um sino tocando e giro o rosto na direção da entrada
do café. Mais pessoas chegando, socializando . Dezembro costuma fazer
isso com todos.
Em cima do balcão de atendimento, meus olhos castanhos se detêm em
uma caixa vermelha com os dizeres: faça uma doação . Logo abaixo, em
letras menores: Dezembro pede gentilezas.
Mordo um pedaço do meu bolo de chocolate e bebo um gole do suco de
acerola.
Milla balança a cabeça e morde a parte interna da bochecha, fazendo com
que eu me encolha em minha insignificância. Tudo bem.
Sabe que não posso sair por dando diagnósticos ou fazendo
suposições responde, com as sobrancelhas franzidas e uma expressão de
cautela.
Ok. Ela tem razão.
Olho ao redor, e as pessoas estão felizes , vivendo suas vidas plenas, com
filhos e pets livres de qualquer preocupação infeliz . O café Flor de
Parênteses , que costumávamos frequentar nas férias da faculdade quando
vínhamos visitar nossos pais em BH, segue idêntico ao de antes. A
iluminação natural suave da manhã entrando pela janela, o silêncio
confortável, o aroma de café passado na hora mesclado ao cheirinho de
terra molhada. Ao fundo, sem muito exagero, é possível ouvir a música
Muda Tudo , do Dani Black, cantor preferido de Sthela. Ela sempre pedia
para repetir quando tocava.
Eu e Milla estamos sentadas, uma de frente para a outra, numa mesa de
madeira reaproveitada belíssima, idêntica a todas as outras espalhadas pelo
salão. No centro da mesa encontra-se uma muda de zamioculca, com as
folhas num tom de verde brilhante, e um pequeno livro de poesia, escrito à
mão. No passado, eu, Sthela e Milla passávamos horas declamando as
poesias desse mesmo livro para os outros clientes uma velha tradição
que adquirimos e fazendo os olhos de Laurina, a proprietária do café, se
encherem de lágrimas.
Ela é uma mulher baixinha, com noventa por cento do corpo coberto por
sardas. Entusiasta de poesia. Toca o café e cuida de quase tudo sozinha. Ela
se vira bem, porque faz tudo com zelo e amor: desde a venda de seus
exemplares de poesia até a rega, no meio do expediente, das mudas de
diversas plantas, como espada-de-são-jorge, samambaias, orquídeas e
suculentas — todas perfeitamente saudáveis.
Eu me recordo de tudo… exatamente assim.
A mesa comunitária perto das plantas, quase sempre repleta de gente; as
cadeiras que não são iguais, mas igualmente bonitas; o cheiro do bolo de
milho e dos doces; os vários tipos de bebidas tudo parece igual. Talvez
eu tenha mudado.
Milla estala os dedos na frente do meu rosto. Eu devia estar em transe,
porque ela continua mexendo a boca loucamente, o piercing dourado no
lábio inferior movendo e brilhando enquanto fala coisas que não consigo
ouvir. Foco, Esmay.
— Você não ouviu uma sílaba do que falei, não é?
Tento parecer ofendida, mas ela percebe.
Merda! Sempre tão observadora.
Eu perguntei se você concorda que a Jennifer Lawrence teria feito
uma Bella Swan melhor do que a Kristen Stewart em Crepúsculo .
Ah… Nossa! Quê?
— Eu sequer sabia que… — pigarreio. — Não fazia a menor ideia de que
ela havia feito teste para Crepúsculo finalizo, dando mais um gole no
meu suco.
Milla chacoalha as mãos e se força a engolir o bolo para falar com a boca
menos cheia.
— Quem diria, hein? Ela levou um não gigantesco logo de cara!
Não respondo. Continuo mastigando meu bolo, séria. Sem graça. Depois,
pego um dos inúmeros guardanapos com frases motivadoras de Laurina e
passo a brincar com ele.
O que você tem? pergunta ela. Está estranha desde que a gente
chegou. Está preocupada com a Sthela ou com… você?
Milla suspira e limpa a boca usando um guardanapo coach com a frase:
“Não é hora para chorar. Você está vivo. Sorria.”
Abro um sorriso mostrando todos os dentes, para testar. Continuo
triste. Milla percebe e leva uma das mãos até a minha, na intenção de me
acalmar.
— Esmay… vai ficar tudo bem.
Eu sei. Claro, me desculpa. É que… murmuro, fazendo o
origami de sapo que finalizei poucos minutos pular de um lado para o
outro da mesa. Sthela que me ensinou. Neste mesmo café. Em uma manhã
igual a esta. Ela é fascinada por esses bichinhos feitos de papel. Muito mais
habilidosa do que eu jamais serei. Obviamente.
O quê? indaga Milla suavemente. Seus olhos acompanham os
movimentos do pobre sapinho de papel.
Eu fico nervosa. Estou sempre nervosa, para falar a verdade. E eu não
sei se isso é coisa da minha cabeça, mas parece que eu não estou
melhorando. Estou sempre cansada, sempre estranha… eu…
Milla ergue uma sobrancelha.
É compreensível diz. Você está fazendo quimioterapia com um
coquetel de quatro drogas, Esmay. Seu corpo está respondendo aos
efeitos colaterais da medicação. Nada de novo sob o sol.
— Está tentando me matar, isso sim — resmungo, irritada.
— Certo. Se isso te incomoda tanto, não pode deixar de relatar ao velho.
— Não chama ele assim…
Ela sorri e me lança uma piscadela.
— Tudo bem. Precisa contar tudo para o doutor Zhang Wei. Melhorou?
— Não é como se eu me importasse muito, para falar a verdade.
Você sabe que ele é tipo uma lenda para mim, não é? Uma referência.
Meu sonho era ser orientada por ele na faculdade. Mas justo quando chegou
a minha vez de ser médica, o cara decide que é hora de parar de lecionar.
Sério! Sorte de quem trabalhou com ele. Sabia que o doutor Zhang
escolhia os mais brilhantes para orientar? Quase ninguém conseguiu ter ele
como orientador.
Ok. Parece que eu e você não estamos falando da mesma pessoa
digo, divertida. Ela revira os olhos. — O doutor Zhang é…
— O quê?
— Não sei… esquisito?
Gênios podem mesmo ser esquisitos, Esmay responde, com uma
entonação de quem está dando uma bronca.
Sei que sim. Mas, claro, ele é um excelente médico. Quanto a isso,
não posso reclamar. O doutor Zhang tem sido essencial no meu tratamento.
Ele me passa muita segurança — pontuo.
Ela assente com a cabeça, sorridente.
— Então ele é tipo um dinossauro da medicina? — pergunto.
— No bom sentido da palavra?
— Isso.
Mais uma fatia de bolo de chocolate na boca.
No bom sentido da palavra, Ludmilla. Claro. Para você e para a
comunidade científica, ele é tipo um gigante da medicina?
Sim. Ele é tipo um tiranossauro rex da medicina retruca com um
sorriso, enquanto se levanta e soquinhos no ar. Espera… esse foi o
maior dinossauro que já existiu, não é?
Ela tamborila os dedos na mesa da cafeteria, e sua xícara de café tilinta
suavemente. Dou mais uma mordida no bolo de chocolate, não antes de
ouvi-la falar com uma voz estridente:
Não é? — insiste, ansiosa. — Do período Paleolítico , talvez?
Ah, meu Deus.
Arregalo os olhos, surpresa. Ok. Ela é brilhante em medicina, mas
história não é mesmo o seu forte.
Para a sua informação digo, levantando o dedo indicador —, o
maior dinossauro que existiu, conforme as evidências mais aceitas
atualmente, foi o Patagotitan mayorum .
Milla ergue uma sobrancelha, como quem diz “tá, mas como você sabe
disso?”.
— Ele foi um dinossauro herbívoro e viveu no período Cretáceo.
Ela ergue ainda mais a sobrancelha.
Ah, e para constar continuo —, o Paleolítico faz parte da
história humana . Dinossauros viveram muito antes, na Era Mesozóica.
Quando o primeiro humano apareceu, eles tinham desaparecido havia
milhões de anos. Misturar as duas coisas é como confundir a Roma Antiga
com a Segunda Guerra.
Certo diz ela, erguendo ainda mais as sobrancelhas. Você é
bastante esquisita, Esmay.
— Sempre gostei de estudar história — digo, dando de ombros.
Dou uma piscadinha, e ela sorri, intrigada.
— Eu sempre fui péssima em história — admite.
— Não diga…
Não precisa humilhar brinca, me olhando nos olhos. Mas,
voltando ao assunto: não deixe de comunicar tudo o que está sentindo ao
doutor Zhang. Cada detalhe importa, Elizabeth.
Eu sei.
As tosses secas, sem catarro ou dor, que não melhoram com água ou
pastilha; a falta de ar ao subir escadas e pegar pesos mínimos; um cansaço
desproporcional, que não melhora com descanso… Sem falar no
desconforto torácico que sinto com frequência. Um peso no peito que
parece me sufocar às vezes.
Tudo isso vem acontecendo desde a segunda infusão do primeiro ciclo de
quimioterapia, de forma gradual. No começo, achei que fosse só o acúmulo.
O corpo cansando de lutar.
Mas esse tipo de cansaço me parece estranho. Não parece normal.
A tosse não dói. Não arde. Não avisa.
O pior não é tossir. É perceber que subir um lance de escadas virou um
pequeno evento. Que preciso parar. Fingir que estou olhando o celular.
Respirar fundo como quem não quer chamar atenção. Começo a suar frio, e
quanto mais tento controlar a respiração, mais parece que estou entre a vida
e a morte. Tento não pensar onde , exatamente, isso tudo está acontecendo
dentro de mim. É um inferno , e geralmente as pessoas percebem. Oferecem
ajuda, perguntam se estou bem e, como eu não possuo nenhum senso de
preservação, digo que sim. Que estou ótima.
Não sei por que meu corpo resolveu me testar assim agora. sei que
não era assim antes.
Na próxima consulta, vou comentar com o doutor Zhang. Nem para
reclamar mais para registrar. Como quem deixa uma observação na
margem de um livro.
Relaxa , Esmay — tranquiliza Milla.
Eu sorrio de leve e volto a brincar com o sapinho de origami. Meu
coração aperta no peito. Não pode ser nada demais, não é?
Vai dar tudo certo. Não sei por que a gente ainda não falou a
respeito… mas vamos continuar com a nossa tradição de final de ano. Nós
vamos viajar no Natal pra Tiradentes. A gente consegue levar a Sthela.
Podemos falar com o Doutor Zhang . E eu Milla bate o dedo indicador
no queixo, — devo dar para o gasto. E aí? Está ansiosa?
Eu, ansiosa para o Natal? Acho que não… Tudo o que sinto agora é
medo, para ser sincera. Talvez o Natal deste ano não seja tão divertido
como foram os anteriores, afinal. Para alguém que sempre adorou essa data
comemorativa, estou muito para baixo.
Uma pena mesmo.
Droga! Sim.
Hoje é um excelente dia para o elevador estar lotado. Sou obrigada a
pegar as escadas e aturar meu corpo praticamente entrando em colapso
por estar subindo alguns lances. Respiro com dificuldade, e a impressão que
tenho é a de que meu coração está pegando fogo. Tento controlar a
respiração e ouço meu coração batendo forte nos ouvidos, como um
lembrete de que estou forçando demais meu corpo. Minhas pernas estão
meio moles, sem atender plenamente aos comandos do meu cérebro.
Ok, Esmay. Só não inventa de desmaiar agora, porque não seria uma cena
bonita.
Meu celular vibra no bolso da calça jeans, e paro por alguns segundos,
escorada no corrimão frio da escada. Respiro como alguém que acabou de
bater o recorde de uma meia maratona: meio descontrolada, meio quase
morrendo. Ultimamente, tem sido normal.
O grupo do WhatsApp, As Três Mosqueteiras , está pipocando:
Milla: Esmay, você tá viva?
Sthela: Verdade. Tá sumida desde ontem. Tá aprontando o quê?
Milla: Dá um sinal aí, Elizaaaaaaaaaaabeth! Alô?
Esmay: Oi, meninas. Eu tava bem cansada ontem. bem, mas daqui a
cinco minutos posso não estar 😥
Milla: POR QUÊ? PARA DE GRAÇA, ESMAY!
Sempre tão literais, penso.
Guardo o celular no bolso e volto a subir as escadas, vencendo um degrau
de cada vez, na esperança de evitar sair rolando escada abaixo. Sinto meu
celular vibrar mais algumas vezes, mas ignoro. Mantenho os olhos bem
atentos onde estou pisando e em quão firme seguro o corrimão, me
prendendo a ele como se minha vida dependesse disso.
Ah… as maravilhas da quimioterapia. Cada dia que passa, parece que
venho me transformando em outra pessoa: tão frágil e sensível.
Neste exato momento, me sinto frágil e sensível. Mas tenho mantido o
controle. O doutor Zhang me tranquilizou, afirmando que o tratamento está
correndo bem, que venho respondendo bem a cada rodada de quimioterapia
— apesar de parecer que meu corpo vem se deteriorando aos pouquinhos.
Olhei-me no espelho antes de sair de casa e pareço estar exausta. Deve
ser porque estou mesmo. Meu cabelo vinha mostrando os primeiros
sinais de alopecia, então o cortei na altura dos ombros e passei a usar boné.
Coincidentemente, tenho muitos na minha coleção, que todo mundo
decidiu que eu gostaria de ganhá-los de presente no meu aniversário de
vinte e cinco anos, que aconteceu na semana passada.
Acho que vou deixar subentendido que, caso alguém queira me
presentear no Natal mesmo que este ano eu esteja sem ânimo para
comemorar —, não vou querer mais bonés. Sejam mais criativos.
Endireito a coluna, ergo a cabeça e volto a subir as escadas. Sinto minha
cabeça girar, e uma única gota de suor frio desce pela minha coluna,
fazendo os pelos do meu corpo se arrepiarem. Sinto-me fraca.
Ah, Deus!
Vou desmaiar… é isso?
Não consigo raciocinar muito bem. sinto uma desconexão com meu
corpo. A falta de ar persiste, insistente e bastante chata. O peso que antes eu
sentia pelo corpo agora não existe mais. Sinto-me leve, flutuando. A mente,
um borrão colorido. Sem sentido.
Um ótimo dia para quebrar alguns ossos caindo deste lance de escada,
Esmay. Parabéns.
Então eu caio…
Espera.
Não.
Mãos firmes me pegam, me agarram, seguram minha cintura e, logo
depois, minha nuca, trazendo-me para perto de si. Seja quem for esse
si ”. sei que sinto seu cheiro e automaticamente penso que esse “si” é
alguém muito cheiroso. Sua pele tem cheiro de lavanda e algo doce, sem ser
feminino.
Penso que, se ele não estivesse ali, eu não estaria.
Meu cérebro está quase desligando, mas consigo pensar em muitas
coisas embaraçosas em um curto espaço de tempo.
As mãos firmes ao redor da minha cintura, sustentando meu corpo como
se a vida dele dependesse disso; os lábios próximos à minha têmpora,
fazendo com que o boné levante um pouco e talvez revele a raiz caótica do
meu cabelo, com os primeiros sinais de alopecia; a voz grave e
perfeitamente confortante quando diz algo como “isso não é possível”,
talvez. Não sei. Acho que estou divagando.
Sinto meu corpo ser levantado e, antes que eu tente raciocinar um pouco
mais, estou sendo carregada — não antes de ouvi-lo dizer:
— Isso só pode ser um sonho…
Não sei você, “si” , mas eu com toda certeza estou sonhando. Sou muito
azarada; então, em um sonho apareceria um cavaleiro de armadura e
cavalo branco, semelhante aos livros de romance que leio, para me livrar de
quebrar alguns ossos e ter fraturas expostas.
Obrigada, “si”, aliás.
CAPÍTULO SETE
Você está aqui
“E então eu abro os olhos e vejo que quem está se apaixonando aqui sou eu.”
Dreams — The Cranberries
Acordar dói.
Sinto um na garganta e a boca seca. Meu corpo me castiga; minha
cabeça lateja, como se alguém tivesse desligado as luzes rápido demais e
esquecido de acendê-las direito quando voltei.
Tudo vem em pedaços. Ouço passos apressados no corredor, pessoas
conversando sobre algumas futilidades da vida adulta. Escuto alguém falar
algo como “o médico está atrasado” , “solicite os exames agora” ou “a
natação do meu filho é às 11, não posso me atrasar” . Sei lá. Meu corpo
está mole, como geleia, e sinto o cheiro de hospital. Grogue . É como me
sinto.
E então… como se tudo isso não fosse confuso, intrigante e
incrivelmente embaraçoso porque não me recordo do que aconteceu ou
de como vim parar nessa cama de hospital — você.
Você está aqui.
Esse nariz reto e arrebitado na pontinha, a pintinha no lado direito do
queixo que sempre me fez querer te olhar sem parar, os olhos verdes
intensos, o rosto perfeito. Isso seria um presente de Natal? Muito bem-
vindo. Obrigada, Papai Noel.
Você… é ainda mais bonito pela manhã… minha voz sai baixa,
lenta, como se tivesse que atravessar um caminho comprido até chegar à
boca. — Você é mesmo muito lindo mesmo.
Ah, Deus. Estou meio grogue, de fato. Minha língua se embola na boca.
A luz é clara demais. Vejo os raios do sol da manhã reluzirem no seu cabelo
preto, quase azul, de tão escuro. Fazia muito tempo que eu não o via tão
claramente.
Nos outros sonhos, sempre era escuro. Sempre. Eu nunca conseguia ver
direito o seu rosto. sentia a sua presença, tinha um vislumbre muito
deturpado do formato da sua face, do sorriso. sentia. E acordava com
muito medo. Medo de esquecer a curvatura perfeita dos seus lábios rosados,
as linhas do seu rosto, o jeito exato dos seus olhos e como você sorria para
mim.
Mas eu não esqueci.
A sua versão mais velha se parece muito com você… Eu tenho uma
imaginação muito fértil, porque consegui preservar com exatidão todas as
coisas que sempre gostei. E, mesmo que você seja fruto da minha
imaginação, ainda assim é perfeito demais para o meu gosto.
Você está aqui.
Parado ao lado da cama, me olhando como se eu fosse algo frágil demais
para ser tocada. Os seus olhos… verdes. Intensos. Tenho certeza de que
nem mesmo o mar Báltico conseguiria captar o tom exato nem mesmo
no verão. São reais demais para um sonho. Porque, obviamente, estou
delirando. Imaginando você pela milésima vez, após tantos anos. Mas até
sonhos sabem mentir bem.
Das outras vezes… continuo, porque parar de falar parece um
pecado, perigoso demais —, quando eu sonhava com você, era sempre
muito escuro. E… você nunca falava muito. ficava ali. A sua voz…
sorrio sozinha. — A sua voz sempre me acalmou, sabia?
Sabia? Meu Deus!? Estou falando com uma alucinação. Como se fosse
ele aqui mesmo. Como se tivesse aparecido. Uma mágica.
A verdade é que sinto saudades. Não sei de quando exatamente. Não sei
de onde. Só sei que sinto.
Esmay… diz ele, os lábios se movendo devagar, as mãos suspensas
no ar, quase que querendo me tocar. Tudo está em câmera lenta agora.
Meu nome na sua boca soa certo e familiar. Eu sorrio mais, com os olhos
fechados agora, cansada demais para mantê-los abertos. Mas memorizei
cada detalhe dele. Separei, numa caixinha, num canto seguro do cérebro, o
seu rosto, a sua voz.
Eu me remexo na cama, solto um grunhido. Minha garganta continua
seca.
Então você se mexe. Sinto antes de ver. O colchão não se move, mas o ar
muda. Você vai embora e nos meus sonhos é sempre assim. Sempre.
Você nunca fica.
— Por favor… — as palavras escorregam antes que eu pense. Não vai
embora, não.
Abro os olhos com dificuldade. Tudo está embaçado, e você está de
costas agora, indo em direção à porta. Ou talvez não. Talvez seja um
jeito que minha cabeça inventou de me punir.
Nos meus outros sonhos você sempre vai embora digo, quase num
sussurro. — Sempre me deixa sozinha.
Minha garganta aperta.
Hoje eu quero… respiro fundo, tentando eu preciso ficar com
você. Nem que seja só um pouco. Só na minha cabeça.
Meus olhos ardem. O cansaço pesa como se eu fosse mais velha do que
realmente sou.
hoje insisto, com os olhos apertados. As lágrimas escorrem,
molhando minhas bochechas. Lambo uma lágrima solitária no lábio, e seus
olhos verdes acompanham o movimento. Eu sorrio por um breve instante e
depois paro. Mais lágrimas. — Por favor.
Fico quietinha depois disso. O coração batendo alto demais. Fico com
medo de ter exigido demais dele . Mesmo que isso seja um sonho. Uma
fantasia semelhante a todas as outras que já tive.
Mas ele não vai embora. E, mesmo com os olhos bem fechados agora, eu
sei. Eu sinto.
Oscar continua aqui. Comigo.
CAPÍTULO OITO
Um devaneio
Se tudo o mais acabasse e ele permanecesse, eu continuaria a existir; e, se tudo o mais
permanecesse e ele fosse aniquilado, eu não me sentiria mais parte do universo.”
— O morro dos ventos uivantes
Você vai me deixar sozinha mais uma vez? pergunto, ansiosa,
desesperada. Tentando chamar a sua atenção.
Oscar não responde. Não com palavras.
Ouço apenas o som da água sendo servida em algum lugar do quarto.
Depois, passos suaves. Ele não é apressado e não é indeciso. Nunca foi, na
verdade. Nunca fez o seu estilo.
O colchão cede levemente quando ele se aproxima de novo. A cama
reclama num rangido quase imperceptível. Alguém puxa uma cadeira e se
senta em algum lugar do quarto. Eu não ligo. Toda a minha atenção se
concentra em Oscar. Não desvio meus olhos dos dele. São tão…
dramaticamente verdes. Me deixam inebriada.
Ele estende um copo de água para mim. Ainda não fala nada, mas sua
respiração é entrecortada, as sobrancelhas franzidas. Eu o conheço bem o
suficiente para deduzir que ele está preocupado. Mas o que tem de tão
alarmante acontecendo para fazer um Oscar imaginário se preocupar? Ele é
apenas um sonho. Um devaneio. Uma fantasia minha, não é, minha mente
fantástica?
Bebo a água que ele me ofereceu e deixo-a lubrificar os meus lábios
rachados, o céu da minha boca, a minha garganta. Sinto o dorso da sua mão
quente encostar na minha testa e tenho vontade de morrer naquele toque.
Oscar era sempre tão gentil. Eu lembro desse traço marcante nele.
Fecho os olhos e suspiro devagar. Como uma menininha apaixonada.
Mesmo de olhos bem fechados, sei que ele está olhando. O quarto continua
claro. Branco e agora silencioso demais. Quebro o silêncio vexatório entre
mim e minha personificação de um Oscar mais velho:
Se essa fantasia for resultado de alguma medicação que eu tenha
tomado… digo, meio sonolenta e preguiçosa, os olhos quase se abrindo
novamente. Quero ter a chance de tomá-la mais vezes. Se isso me fizer
ver você tão claramente como agora.
Sorrio, divertida.
Ele solta um grunhido.
Exatamente. Oscar solta um grunhido do fundo da garganta. Ouço
quando ele diz, com uma voz bem diferente da que eu me lembro, mas
ainda assim… conheço bem a voz. Meio confusa essa situação:
— Mas que merda é essa? — diz ele, talvez rude demais.
Ou melhor, diz alguém . Porque os lábios de Oscar não se moveram.
estão meio entreabertos, entre a incredulidade e o choque.
No entanto, a voz… não é de Oscar. Reconheceria esse timbre entre um
milhão de pessoas. Essa voz é de alguém que me conhece e é muito
próxima a mim. E, pelo tom e o agudo abusado… estou certa de que a dona
da voz está muito brava.
Agora, que droga é essa que está acontecendo? Porque, até onde eu sei,
estou alucinando. Sendo assim, não consigo entender por que a voz da
Milla aparece em um sonho que estou tendo com Oscar.
Ouço um barulho irritante de uma cadeira riscando o chão, rangendo de
forma incômoda enquanto alguém se levanta bruscamente. Oscar retira a
mão da minha testa e eu gemo, reclamando. Não quero que se afaste. Pela
primeira vez em muito tempo sonhando com ele, eu não tenho mais medo
de esquecer.
Você poderia, por gentileza, nos dar um tempo a sós? pergunta
Oscar a alguém. Ela está sob efeito de medicação, mas está
recuperando a consciência. Se você não se importa…
Oscar estende a mão na direção da pessoa. E então eu olho. Meus olhos
se arregalam de verdade e agora posso ver mais claramente o que está
acontecendo à minha volta.
É mesmo Milla.
A pessoa que Oscar pediu tão educadamente para se retirar… é ela.
Não vejo por que eu faria isso retruca, com uma rispidez reservada
àqueles em quem ela não confia. Ela está claramente delirando e
confundindo você com outra pessoa. É natural que eu queira me certificar
de que ela está plenamente consciente antes de…
Milla? chamo por ela, que passa por Oscar. Sim, ela contorna
Oscar e vem em minha direção. Agarra minhas mãos, que estão frias, e o
seu toque me aquece. V-você gaguejo, nervosa. Está aqui? Quero
dizer, você é real?
Ela franze as sobrancelhas, demonstrando uma confusão genuína. Milla
sempre foi muito transparente quanto às suas emoções.
Sim, querida confirma, assentindo com a cabeça. Seus cabelos
formam um véu que esconde meu rosto do olhar intrigado de Oscar. Eu
recebi uma ligação do hospital. Estou na sua lista de chamada de
emergência. Lembra?
Faço que não com a cabeça.
Você não se lembra que me colocou na sua lista de emergência?
pergunta, incrédula, apertando meus ombros de leve. Ela se senta na beirada
da cama. — Elizabeth, você desmaiou quando subia a escada da clínica. Foi
isso que aconteceu, querida. Não se lembra?
Faço que não com a cabeça mais uma vez.
Milla fala algo como “não sabia que estava com problemas de memória”,
mas não é isso. Porque eu me recordo. E se ela for real e tudo o que
disse for também —, então isso significa uma única coisa: Oscar é real,
ouviu todas aquelas bizarrices que falei, Milla presenciou a cena de horror e
agora o maior vexame da minha vida adulta foi assistido por duas pessoas
próximas. Duas . Droga.
Eu me lembro, sim digo rapidamente, interrompendo algo que ela
iria dizer. — É só que… Milla. Acho que preciso falar a sós com o Oscar.
Ela se afasta de olhos arregalados, com uma expressão que diz algo
como: que merda é essa que está acontecendo e quem é esse cara?
Desvio o rosto do olhar inquisidor dela e me concentro nele.
Oscar está vestindo uma camisa de algodão preta e um jaleco branco. Um
jaleco. Branco . Com um crachá. Com o seu nome.
Ele usa um estetoscópio no pescoço e carrega um tablet em uma das
mãos. Ele o coloca na mesinha ao lado, mordendo as bochechas por dentro,
e depois o pega novamente, meio inquieto.
Seus olhos cor de esmeralda me estudam, captando sensações que nem eu
consigo entender. Quero me afundar nessa cama e virar uma com ela.
Apenas um objeto inanimado, sem sentimentos.
Você vai me explicar o que aconteceu aqui depois? pergunta Milla,
me tirando de um transe guiado pelos olhos verdes dele. — Elizabeth?
— Vou. Claro. Eu explico, sim.
Vai ser ótimo, Milla, explicar detalhe por detalhe de todo esse
constrangimento.
— Pode deixar.
Ela resmunga um “tudo bem” rápido, me um beijo na bochecha e se
afasta. Antes de sair porta afora, encara Oscar mais uma vez. Milla tem 1,80
m de altura, mas não faço a menor ideia de como consegue ficar pequena
perto dele. Com certeza a teoria da relatividade de Einstein explica isso.
A porta se fecha.
E então fico a sós com ele.
Oscar .
Você é real, não é? pergunto, com os olhos baixos. Observo as
suas mãos enormes se fecharem até os nós ficarem brancos. Então ele as
abre e estica todos os dedos. Essa mania… ainda não perdeu.
Sou, sim, Esmay responde ele, com uma voz grave e firme. Eu
não disse nada porque ela estava aqui. Seria antiético da minha parte
responder às suas alucinações.
Eu finalmente o encaro. Seus olhos verdes me perfuram.
— Eu… Esmay, eu…
— Como isso é possível?
— Não faço a menor ideia.
— Osca
— Oi.
Engulo em seco.
— Você é mesmo real?
Antes que eu finalize, Oscar se aproxima com passos largos e decididos.
Ele olha de um lado para o outro, mas não tem ninguém neste quarto de
hospital limpo e branco demais.
Ele agarra minha mão direita com cuidado e delicadeza. Meus pelos se
arrepiam.
Com a outra mão livre, ele segura a aba do meu boné, na intenção de tirá-
lo.
Faço que não com a cabeça.
— Por favor…
Sua mão aperta a minha, como quem diz relaxa… você está bem.
Shhh… murmura ele. Está tudo bem. Você ainda confia em
mim, não confia?
Penso por alguns segundos.
Então faço que sim com a cabeça, lentamente.
— Certo — diz, levantando a aba do meu boné só um pouquinho.
Eu suspiro, nervosa, irritada, medrosa.
Ele assente uma, duas vezes.
Abaixo o olhar, envergonhada.
Oscar retira o boné por completo e então eu deixo, inconscientemente,
uma lágrima solitária escapar.
— Você é linda, Esmay. Sabia? Sempre foi.
Arregalo os olhos, surpresa.
— Eu não…
Você é garante ele. Isso não passa de uma fase do tratamento.
Eu consigo entender o quanto deve ser difícil para você aceitar que os seus
lindos cachos estão caindo. Você sempre amou seu cabelo e… Uma
pausa. — Eu também.
Ele sorri. Sua covinha na bochecha esquerda fica mais evidente que a da
direita.
Oscar brinca com um cacho rebelde e ressecado do meu cabelo.
— Vai passar — afirma ele. — Você vai enfrentar o tratamento de cabeça
erguida e não vai deixar esse câncer vencer. Como a péssima perdedora
que você é.
Solto uma risada fraca. Mais lágrimas caem. Oscar as limpa com o
polegar, sorrindo para mim.
Seu sorriso é mesmo lindo.
Disso eu me lembro.
Ele tem razão. Nunca gostei de perder mesmo. Sempre arrumava
confusão quando perdia dele no xadrez, por exemplo. Oscar aprendeu
xadrez comigo, mas acho que ele era talentoso demais. Um gênio. Eu só era
muito habilidosa. Ele sempre vencia. Eu nunca consegui vencê-lo. Isso me
irritava às vezes. Meu espírito esportivo é meio intenso. Sanguinário.
Você desapareceu da minha vida, Oscar choramingo. Em um
Natal você estava lá, sendo a pessoa que eu mais confiava e queria por perto
no mundo e…
As palavras se perdem.
Ele assente, as sobrancelhas erguidas, franzidas de um jeito fofo. Os
olhos bem abertos, profundos demais para eu conseguir encará-lo por muito
mais tempo.
Quando eu voltei para Tiradentes para visitar a vovó Mirtes e também
ver… você insisto. Ele não desvia os olhos dos meus. Os lábios
entreabertos. O rosto corado. Um semblante de tristeza nubla sua face.
Naquele Natal de 2013, você não estava mais lá. Você tinha evaporado.
Como se nunca tivesse existido.
— Querida — diz minha avó, com os olhos tristes. — Eu sinto muito. Não
peguei endereço nem número para contato. Quando fiquei sabendo… a tia
já tinha ido embora e levado o menino junto. Pobrezinho. Os pais sequer…
A senhora sabe quando ele foi embora? pergunto, acelerada. O
coração batendo forte no peito. As mãos suando. — Ele… veio aqui alguma
vez depois que voltei para Belo Horizonte?
Veio, sim, querida. Eu… Vovó suspira por alguns segundos. Então
limpa as mãos no avental branco e corre até o forno para retirar o bolo de
milho que estava assando. Eu dei comida pra ele. Fiz marmita de
lasanha de frango, que eu sei que ele adora, fiz bolo de milho, cesta de pão
de queijo, suco de morango, feijão-tropeiro… Fiz tudo para ajudar, Esmay.
Porque eu sei que ele é um bom menino.
E-eu… — gaguejo. Agarro com força o tecido macio do vestido. Meus
lábios tremem, os olhos marejam, a respiração se embaralha enquanto
escuto minha avó dizer que Oscar meu melhor amigo, minha pessoa
favorita foi embora. E pior: não sabemos para onde, nem com quem,
nem se vai voltar. Não consigo acreditar que Oscar se foi. E-ele… acho
que ele precisa de mim, vovó, né?
Ela abre um sorriso triste, repleto de compaixão.
— Merda! — praguejo.
— Olha a boca, menina — adverte minha avó, sem me olhar feio.
— Desculpe… é só que… — respiro fundo. — Eu o amo, vovó.
As palavras saem feias e embargadas. Um se forma na minha
garganta, me sufocando. Eu disse em voz alta que o amava. Minhas
bochechas queimam de vergonha.
Mas confio em minha avó.
Oh, minha querida consola ela, afagando meu cabelo e me
puxando para mais perto. Apoio a cabeça em seu peito e sinto o perfume
doce e delicado, o aroma de bolo de milho no avental. A chuva cai fora,
molhando o jardim de rosas, assim como as lágrimas grossas e salgadas
molham meu rosto. Você tem treze anos… Vai saber o que é amar
alguém de verdade quando estiver mais velha. Agora… pode chorar.
E foi isso que fiz. Chorei por mim, por Oscar, por termos nos afastado tão
bruscamente. Chorei porque o Natal de 2013, que eu achava que seria
maravilhoso, se transformou em um pesadelo. Passei dias chorando. A
saudade me sufocava. O medo dele estar com fome, sem ninguém para
ajudá-lo. Naquele Natal, torci para que Oscar conseguisse vencer na vida.
Sair daquele limbo de pobreza e necessidade.
Depois de Oscar… nunca mais amei alguém.
Aquilo, sim, era amor.
Esmay… diz ele, com o rosto repleto de dor. Seu polegar passeia
pela minha bochecha, devagar. — Eu procurei por você. Depois. Quando já
tinha condições de me virar sozinho.
Você procurou por mim? pergunto, com as sobrancelhas franzidas.
— Onde?
Não voltei para Tiradentes depois que fiquei sabendo da morte da sua
avó. Sinto muito. Ela era…
Ele engole em seco. Respira fundo. Seus dedos tremem ainda acariciando
minha pele.
— Ela era muito boa para mim.
— Por que não voltou?
— Eu sabia que a única coisa que te prendia àquela cidade era sua avó —
responde, com a voz baixa. Quase uma confidência.
— E você… — sussurro.
— O quê?
As únicas pessoas que me prendiam a Tiradentes eram a minha avó
e… você , Oscar.
Ele abre a boca, fecha, abre de novo. Então pergunta:
— Você voltou lá depois da morte da sua avó?
Assinto. O qu eixo dele cai. Os olhos verdes bálticos se arregalam. Você
ainda não percebeu, Oscar? Não entende o quanto eu…
Quando?
— Todos os anos. Em todos os Natais, Oscar.
— Merda…
É. Merda mesmo. De 2013 até este ano, passei todos os Natais em
Tiradentes. Esperando você. Ele reprime um xingamento. Mas você
nunca apareceu.
— Eu não imaginava que…
Que eu fosse tão apegada àquela cidade? Ele arregala os olhos.
Ou… a você?
Não é isso retruca, passando as mãos pelos cabelos escuros. Ele
coça os olhos e logo em seguida passa as mãos grandes pelo rosto. Parece…
exausto. Vejo as olheiras azuladas abaixo dos olhos, a boca franzida e
apertada. Ainda assim, segue sendo o homem mais bonito com quem
interagi na vida.
Eu não imaginava que você ainda pensasse em mim, Esmay diz,
passando as mãos agora pelos meus cachinhos rebeldes. Achava que era
só eu que…
— O quê, Oscar?
Que não conseguia te tirar da cabeça revela, apertando a ponta do
nariz e sorrindo fraco.
Oscar é lindo. Tão lindo de morrer que decido que é hora de colocar o
boné de volta.
— … e olha que tentei, Esmay. Muito.
Prendo a respiração.
— Você não faz ideia — conclui ele.
Minha expressão muda. Algo muito próximo de ciúmes . Um sentimento
feio. Não posso permitir sentir ciúmes de um homem de 27 anos, solteiro,
sem compromisso algum comigo.
— Eu tenho sim. Deve ter saído com muitas mulheres, então.
Ah, com toda certeza ele saiu , sim. Não faz sentido que alguém como
ele não tenha um exército de mulheres ao estilo Victoria’s Secret com o
detalhe cruel de serem também inteligentes, provavelmente cientistas como
ele. Gênias . Como ele. Que chance eu tenho?
O quê?! exclama Oscar, arregalando os olhos. Isso… não. Não
mesmo, Esmay.
Então o que você fez para tentar faço aspas com os dedos me
tirar da cabeça?
Ele morde a parte interna da bochecha. Eu mordo os lábios, tentando
segurá-los firmes.
Saiu fazendo trabalho comunitário, leu cem livros por ano, aprendeu
novas receitas, resgatou gatinhos de árvores, plantou um limoeiro?
indago. — Me diz , Oscar.
Ele fica sério. Não é raiva. É consigo mesmo.
Eu estudei , Esmay. Não é isso que pobre tem que fazer neste país de
merda?
— Perdão?
Quando eu tentava te tirar da cabeça repete, com a respiração
pesada — eu estudava. Estudei e trabalhei como um desgraçado. Mas, entre
fórmulas de matemática e mesas que eu tinha que servir, você sempre
aparecia. Sempre.
Parecia coisa da minha cabeça. Mas eu gostava de lembrar de você.
Do seu rosto, da sua risada. Isso me mantinha focado. Eu sabia que, se
quisesse ter alguma chance de te reencontrar, precisava resolver a minha
vida ferrada. Então trabalhei, estudei para o Enem e passei, com dezoito
anos, na PUC. Fiquei em primeiro lugar. Foi difícil. Toda a transição, quero
dizer.
Faço que sim com a cabeça.
Quero poder abraçá-lo. Quero muito. Quero poder dizer que estou feliz
que ele tenha conseguido. Que durante todo esse tempo guardei na memória
as lembranças da minha relação com ele. Da nossa amizade profunda. De
tudo em Tiradentes. Ah, Oscar. Se você soubesse.
Oscar respira fundo e balança a cabeça. Os seus olhos me capturam.
Não consigo parar de encará-lo. Estou… estarrecida . É isso.
Mas, eu nunca pensei em desistir admite. Eu sofri muito. Pra
caramba! Olha… foi bem problemático todas as coisas que passei. Porém,
eu acho que sou um pouco teimoso. Imperturbável, talvez?
Talvez? retruco balançando a cabeça e sorrindo. — Oscar, você é a
pessoa mais autocentrada que já conheci em toda a minha vida.
Quê?! exclama ele. me chamando de egocêntrico, Esmay?
Ou pior… Não! Tá me chamando de narcisista ?
Arregalo os olhos. Não! Não.
Peraí. de sacanagem? Oscar está brincando comigo. Ele entendeu o
que eu quis dizer. está tirando sarro das minhas escolhas de palavras,
como quando éramos adolescentes.
Você e suas palavras difíceis. Eu sei , Esmay. Ele diz. Suas mãos
voltam a acariciar minha bochecha sardenta. Eu não reclamo. Concordo.
Eu sou meu próprio eixo. Não costumo me anular para caber em relações.
Consigo me colocar em primeiro lugar sem me sentir mal com isso. Mas,
não sou egoísta. Nunca.
— Não é, não. Você é…
Engulo em seco.
— … um gênio.
Não era isso que eu ia dizer. Ele sabe que não. Porque me olha de um
jeito intenso demais.
— Não sou, não . Sou esforçado. Razoável.
Ele dá de ombros.
— É diferente.
Arregalo os olhos. Oscar sempre foi um gênio. Quando me ensinava
matemática, explicava melhor do que qualquer professor. Tirava minhas
dúvidas com paciência, como se tudo fosse simples. Sempre dizia que era
só porque era dois anos mais velho.
Razoável?
Nem ele acredita nisso.
Ele tem ciência de que é brilhante.
Você é mesmo um gênio, sim! Parabéns, Oscar! digo, sorrindo.
Você cursou medicina na PUC?
Ele aquiesce com a cabeça.
— Você…
Ele me encara, ansioso. Nervoso. O rosto corado, os lábios apertados,
como se estivesse com medo do que eu fosse dizer.
— Oscar, você trabalha aqui?
Ele morde o lábio inferior e passa os dedos longos pelos cabelos escuros.
A luz do sol da manhã, que entra pelas janelas do quarto, faz Oscar ficar
ainda mais lindo. Se é que isso é possível.
— É complicado — responde, balançando a cabeça.
Não sou um gênio como você, mas acho que posso entender digo,
inclinando a cabeça.
Uma mecha do seu cabelo liso escorrega para os olhos e, com um instinto
que nem eu mesma sabia que nutria em relação a ele, corro para afastá-la.
Ele faz o mesmo. Nossos dedos se tocam. Uma descarga elétrica sem
precedentes, como dois fios desencapados. Antes que eu recolha a mão, ele
segura meus dedos e os mantém ali, colados à sua bochecha.
Eu sou residente R1 de Oncologia em um hospital público explica.
O doutor Zhang é meu preceptor. Foi ele quem me orientou desde a
faculdade… acabamos ficando muito próximos.
Ergo uma sobrancelha, e ele continua. Os nós dos dedos acariciam o meu
maxilar.
A clínica é conveniada com o hospital da residência. Então faço
alguns plantões aqui também. Sempre com supervisão dele, claro. Tudo
muito bem controlado.
Ah, Deus. Oscar… você conseguiu se tornar médico?
Uau… sorrio, e ele sorri também. Ficamos nos encarando,
intensamente. Meu Deus! Parabéns, Oscar. Eu nem sei se consigo
mensurar o quanto estou feliz por você.
Ele continua segurando minha mão colada a sua bochecha. Os olhos
verdes brilhando.
Antes que eu perceba, estou o abraçando. Agarrada ao seu pescoço.
Meu queixo apoiado nos ombros largos. Oscar não hesita e passa os braços
pela minha cintura, me puxando para mais perto. Não quero sair desse
abraço nunca mais. Senti tanta saudade.
O cheiro dele é muito bom. Aliás, eu me lembro desse cheiro… é tão
gostoso. Tão familiar . Era ele, então.
— Você é o “ si ”, Oscar…
— O quê, querida? — murmura. — Repete. Eu não entendi.
Você é o si” repito. Era você na escada, não era? Você me
salvou.
Ele não responde. Mas aperta minha cintura com mais força.
Assente com a cabeça. Afaga minhas costas. Cheira meu cabelo.
Era ele, sim.
Oscar… meu cavaleiro de armadura e cavalo branco.
Quem diria, não é?
Isso, sim, é um presente de Natal de verdade.
CAPÍTULO NOVE
Parece até mentira
“Eu sei que algum dia você terá uma bela vida. Eu sei que você será uma estrela no céu de outro
alguém, mas porque não pode ser no meu?”
Blach — Pearl Jam
Continuo sem acreditar que é ela. Esmay.
Eu a procurei por tanto tempo. Achava que nunca conseguiria vê-la
novamente. Eu me considerava um cara extremamente azarado. Mas parece
que nem tanto agora, porque a sorte resolveu sorrir para mim. não era
sem tempo.
De todas as clínicas de Belo Horizonte em que ela poderia se tratar,
escolheu justo essa. É nítido que isso se deve à competência do doutor
Zhang e ao fato de ele ser uma referência na oncologia. Mas, ainda assim, é
quase um sonho. me belisquei inúmeras vezes desde que a trouxe para
cá.
Esmay Elizabeth. Seu nome. Era tudo o que eu tinha e sabia sobre você.
Nada mais, além disso. E, olhando para o passado agora, consigo pensar
que toda a espera valeu a pena. Todo o tempo que desejei passar com você
ou ver o seu sorriso de novo. As noites em claro entre uma prova e outra da
faculdade, as horas de trabalho incansáveis. Tudo valeu a pena. Todo
esforço e dedicação me trouxeram exatamente para este momento da minha
vida. O momento em que reencontrei você.
E parece que nada mudou. Pelo menos não para mim. Olhando para você
agora, percebo que o seu sorriso continua o mesmo de antes. Encantador.
Como você sorri é inebriante.
Você estava tão próxima. Perto demais. Parece até mentira.
Quando vi aquela garota escorregar e quase cair da escada, agi por
reflexo e impedi o pior. Fiquei orgulhoso de mim mesmo. Mas, quando
finalmente prestei atenção… as sardas nas bochechas, os olhos castanhos
expressivos e alegres, que eu conhecia bem, os cabelos cacheados…
Quando olhei para o rosto daquela garota, que agarrava a barra da minha
camisa com tanta força. Quando me dei conta de que quem estava nos meus
braços era você… meu mundo ganhou cor novamente. Forma.
Foi um choque quando descobri o motivo que te trouxe até aqui. Olhei
todo o seu prontuário e o seu histórico médico de cima a baixo. Analisei
todos os exames feitos até agora, as infusões, quantos ciclos de
quimioterapia você já fez. As intercorrências. Não quero deixar passar nada.
Quero cuidar de você.
É exatamente por isso que talvez eu esteja prestes a fazer uma coisa
antiética e extremamente displicente da minha parte. Estou um pouco
nervoso. Ah, cacete! Tô muito nervoso. Mas eu consigo fingir bem.
É um problema quando penso no fato de que ele me conhece muito bem.
Entretanto, tenho em mente que sou excepcional quando o assunto é
performar. Fiz isso a minha vida inteira.
Duas batidas na porta.
Nessa porta perturbadoramente branca. Ele sabe que sou eu. Mas nunca
me pede para entrar. Gosta de agir como se não me suportasse. Velho
rabugento! Eu sei que você me adora.
Eu sempre entro.
Porque, se eu não entrar… olha, sinceramente, ele não se importaria em
me ver petrificado, semelhante às estátuas das pessoas daquela cidade
romana chamada Pompeia, que foi destruída e soterrada pela erupção
daquele monte… qual era mesmo o nome? Ah! Vesúvio. De fato, Zhang
não se importaria. Ou, ao menos, quer que eu acredite nisso.
— Estou ocupado agora, Oscar — resmunga ele, carrancudo e irritado.
Os olhos de águia se concentram na tela do seu computador de última
geração, que para ele faz pouca diferença que Zhang mal consegue
acessar o Google sem precisar de ajuda.
— Tô vendo.
Pilhas de exames e papéis estão espalhadas pela sua mesa ampla, que
agora parece pequena demais. Espera. O quê é aquilo ali? São desenhos
de… crianças?
Naquele desenho perto do braço dele tem mesmo um Zhang de braços
cruzados e óculos praticamente maiores que o próprio rosto, com cabelo
Black Power, vestido de… Super Choque?
Ah… são cartinhas.
Cartinhas de Natal. Tem um mini texto escrito com letrinhas meio
disformes, mas incrivelmente fofas. Os “os” e os “as” saíram
desengonçados. Mas está perfeita. Na carta, diz:
Amo você, doutor Z. A mamãe disse que eu tenho que chamar de senhor,
mas você disse que não liga. Sabia que eu gosto de como você trata a
gente? As outras pessoas sempre me olham feio, como se eu fosse um
monstro. Mas você não.
Já que você me falou aquele dia que é mesmo o Papai Noel, eu queria pedir
um presente. Se não puder me dar esse ano porque não fui bonzinho e
aprontei algumas coisas como aquela vez que coloquei meleca no
casaco do Arthur ou aquela outra em que chamei a Alice de feia, quando
ela pegou a minha caixa de colorir e não queria devolver não tem
problema. Deixa pro ano que vem.
A titia Mara disse que eu tinha que me desculpar com meus amigos e pedir
perdão pro Papai do Céu também. Fiz as duas coisas. Ela disse que o
Papai Noel ia ficar sabendo do meu auto de himildade. Acho que foi isso
que ela disse. Mas eu queria pedir o meu presente. Faz tanto tempo que
ansioso. Espero que você traga o que pedi.
No dia que a titia Mara veio aplicar aquele soro que demora, eu perguntei
se poderia ir à praia. Ela disse que ainda não. É que eu tô muito dodói, né?
Mas eu quero ir com a mamãe, o papai, a Mirna e o meu cachorro
caramelo. Sabia que o nome dele é Virgil Hawkins? Igual o desenho do
Super Choque. Eu adoro esse desenho.
Então, quando eu andava com ele na rua, gritava: VIRGIL HAWKINS,
quando ele corria atrás de outro cão e todo mundo ficava olhando. Ele
vinha, claro. Balançando o rabinho. Amo ele também e sinto saudades.
Então, quando eu for à praia, eu quero levar o presente que vou pedir
agora. Quero uma boia verde com aquele peixe lindão azul do desenho que
assisti ontem. Ele é azul, grandão, doutor Z, e parece um tapete. Leva todos
os peixinhos para a escola. É do desenho Procurando Nemo. Eu não sei o
nome daquele peixe gigante… mas ele tem um rabo fino e pontudo. É
bonito. Será que vou ter a chance de ver um daqueles de verdade? Eu
queria. Queria mesmo.
Minha mãe dormiu na hora que ele apareceu, então ela não sabe como
chama aquele peixe. Mas você é o Papai Noel. Tem poderes mágicos, não
é? Vai descobrir. Eu quero essa boia. Verde, com esse peixe bonito azul
cheio de bolinhas.
Eu quero pegar sol na pele. Tomar banho naquela água salgada. A mamãe
disse que não pode beber porque faz mal e tem gosto ruim. Eu não bebo.
Nem o Virgil Hawkins.
Então, se você tiver tempo e quiser mesmo me dar esse presente, não
esquece de deixar aqui no meu quarto, tá? Vou ficar esperando. vendo?
Sou um menino bonzinho.
De seu amigo mais engraçado,
Dante.
Que criança… adorável
— Quantos anos ele tem?
Zhang ainda não está olhando para mim. Como eu disse: gosta de fingir
que me odeia.
— Quem? — pergunta, ainda digitando.
O dono do Virgil Hawkins insisto. Ele finalmente me olha.
Quantos anos ele tem?
— Dante tem oito anos e é uma criança excepcional.
— Concordo.
— Hmm.
— O nome é Sr. Raia , doutor Zhang.
Perdão? Ele ajeita os óculos fundo de garrafa enquanto me encara,
franzindo as sobrancelhas. — Do que está falando, Oscar?
— Você vai ter que adaptar o presente, porque ele foi muito específico.
Zhang solta uma risada e se reclina na cadeira, fazendo-a ranger
baixinho.
Quer dizer… uma boia verde com o desenho do Sr. Raia? Não vai
achar isso em lugar algum. Vai ter que adaptar.
— Obrigada pela dica, Oscar. Mas eu tenho os meus próprios artifícios.
— Que seriam…?
Zhang ergue uma sobrancelha, e um sorriso de lado ornamenta seus
lábios. Ah, claro. Como não pensei nisso antes?
— Vai mandar fazer? — indago.
Ele sorri. Um sorriso debochado. Zhang parece até mais jovem sorrindo
assim. O cabelo grisalho não faria muita diferença se ele sorrisse assim
mais vezes.
Não faço a menor ideia de onde vai conseguir fazer isso, mas em
frente. Dante precisa mesmo ganhar essa boia verde de presente… Papai
Noel.
— Sim.
Ele sorri mais ainda. Mas logo em seguida volta os olhos para a tela do
computador, me ignorando. Ótimo.
Pigarreio. Ele não olha de volta. Beleza.
— Doutor Zhang, eu vim perguntar se…
— Se for reclamação sobre atraso de infusão — interrompe — ou algo do
tipo, fale com a enfermagem.
Não é nada disso.
Quero acompanhar a paciente Esmay digo. Ele não levanta os
olhos do teclado do computador. Está digitando usando apenas os dois
dedos indicadores, como pinças. Faz isso como uma tartaruga. Acredito
que possa ser de grande valia para a minha formação.
Ela não é uma paciente difícil, Oscar observa ele, ainda digitando
como uma lesma. Meu Deus! — Não que exista algo difícil para você, não é
mesmo?
está na hora de ele aprender a usar o microfone do computador para
transcrever textos. Uma mensagem de e-mail com dez linhas se transforma
em um grande evento literário de mais de meia hora.
Doutor Zhang… o senhor é um cientista brilhante. Mas, quando o assunto
é tecnologia… uma criança de três anos consegue se sair melhor. Aposto
que Dante consegue se sair melhor do que você.
— Sei que não.
Ele ergue uma sobrancelha.
O que você andou aprontando no seu tempo livre? pergunta,
curioso.
Os olhos escuros, agora atentos, me encaram. Isso me faz lembrar da
época da faculdade, quando apresentei meu projeto de pesquisa sobre
linfomas, que fez com que boa parte dos meus colegas se esforçasse um
pouquinho mais para conseguir uma vaga como orientandos do doutor
Zhang. Ele só escolhia os melhores. Palavras dele, não minhas.
Quando finalmente decidiu que eu seria orientado por ele naquele ano,
percebi que eu poderia mesmo me tornar um médico excepcional. Grande
parte do profissional que sou hoje devo a ele.
— A Esmay desmaiou subindo as escadas da clínica outro dia — declaro.
Ele me observa atentamente agora, com a postura completamente aberta. —
Isso me deixou incomodado. Decidi, então, voltar ao ponto de partida. Reli
a biópsia original, olhei as imagens do PET com calma, conferi também as
datas, as doses e os exames que ela fez.
— Conversou com a paciente? — indaga ele, coçando o queixo. — Isso é
essencial.
Sim, senhor. Em tese, fiz uma segunda leitura especializada do caso
dela.
— E?
Suspeito que tenha havido uma reação pulmonar inicial à bleomicina.
A inflamação que vimos no PET intermediário, na verdade, é um…
Falso positivo? pergunta ele, intrigado. Um sulco se forma entre as
sobrancelhas grisalhas. Ele se remexe na cadeira, impaciente, ansioso. Ele
gosta de me ver divagar, ao que parece.
— Isso.
— Certo. E o que mais?
Me afasto da porta, aproximando-me da mesa com as mãos enfiadas no
bolso do jaleco.
Não seria o câncer progredindo, obviamente. Talvez o exame não
esteja pior. o corpo dela que agora está respondendo de um jeito
diferente.
O exame dizia que o câncer tinha recuado, mas não o quanto deveria. O
PET feito no meio do tratamento mostrava resposta, mas abaixo do
esperado. Tudo bem. Não é um fracasso, afinal. Somente um alerta.
O câncer não está se espalhando pelo pulmão. É apenas uma inflamação
causada pelo tratamento.
— Tudo bem. Pode ficar de olho nela, por ora…
Ele volta a digitar com certa dificuldade. Depois para e continua a me
orientar, porque digitar e conversar são como óleo e água para ele. Zhang
não consegue misturar as duas coisas.
Hesito por um segundo antes de falar:
O senhor acha que… que seria prudente eu acompanhar o caso mais
de perto mesmo ?
Não sei porque fiz essa pergunta idiota. É o que eu quero, não é? E
mesmo que seja antiético, não tem como Zhang saber.
Ele me encara.
Acompanhar, sim . Decidir, não. A pausa é breve, mas firme.
Isso ainda é minha responsabilidade.
Faço que sim com um aceno.
— Claro.
Vou discutir isso com a pneumologia e rever as imagens com a
radiologia antes do próximo ciclo continua Zhang. Se houver
qualquer sinal de toxicidade pulmonar evolutiva, a bleomicina sai do
protocolo.
Ele fecha os olhos e passa as mãos pelos cabelos grisalhos. Um sinal da
sua irritação corriqueira.
— Até lá, seguimos atentos. Tudo muito bem documentado.
Solto o ar devagar e assinto, mais uma vez. Ele me despensa com um
aceno de mão.
— Tá digitando um livro? — pergunto antes de sair. Ele me olha feio.
É um e-mail em resposta a uma aluna da residência que está com
dificuldades. Anotei no papel rapidinho… mas sabe como é… não sou o
bonzão da tecnologia. Não sei como os jovens de hoje conseguem usar com
tanta facilidade essa… coisa.
Tudo bem. Chega pra lá! peço, empurrando sua cadeira um pouco
para o lado. — Deixa que eu faço isso.
— É muita gentileza, Oscar. Mas não precisa.
Claro que precisa retruco, sorrindo de lado. Olha o tamanho
desse texto! Não ia conseguir digitar tudo isso nunca. Ficaria escrevendo
aqui até o Natal. Ou talvez até o Ano-Novo.
Ele me empurra com o ombro.
— Não conta isso pra ninguém, garoto.
Nunca perdeu essa mania, não é? De me chamar de garoto. Beleza.
estou acostumado.
— Não conto, não. Pode deixar.
Em menos de três minutos, o garoto aqui escreveu o e-mail e enviou.
Sem maiores problemas.
Ah, Zhang . Aprende a ser grato da próxima vez.
CAPÍTULO DEZ
Implicações
O meu amor e os meus desejos permanecem inalterados.
Mas basta uma única palavra sua para que nunca mais lhe fale no assunto.”
— Orgulho e Preconceito
Ele me deu o número dele.
Por livre e espontânea vontade. E, mesmo que não tivesse me dado, eu
teria pedido. Com Oscar eu não consigo ter vergonha. Ele me deixa
confortável. Me sinto segura.
Depois do desastre que foi aquele dia e do quanto fiquei mal antes e
depois da infusão, continuei cogitando ligar ou não para ele. Ontem passei o
dia inteiro com o celular na mão. Tomando coragem. Por quê? Porque sou
uma idiota. Covarde.
Sthela insistiu, afirmando que eu teria que ligar. Mas Milla… Ela é a
maior defensora do Oscar agora. Não sei o que deu nela. Quero ligar, sim.
Mas não quero ser um incômodo e, definitivamente, não quero prejudicá-lo
no trabalho. Oscar está me acompanhando de perto, mas o doutor Zhang…
Bom, ele não sabe da nossa relação. Ou, ao menos, da nossa antiga relação.
Eu sei que era coisa de criança. Mas foi especial. Pelo menos para mim e,
meu Deus, acho que estou apaixonada por esse homem. Esse gênio de um
metro e noventa de altura.
Você não vai esperar mais, né? diz Sthela, alisando o lenço rosa-
claro na cabeça. — Ou será que vai ?
Solto um gemido e me jogo de costas na cama. Droga! Droga! Por que
Deus tinha que ter me feito tão tímida?
Ela vai, sim concorda Milla, e eu me remexo nos lençóis brancos
da cama.
— Meninas, eu não quero parecer invasiva — digo.
Invasiva? exclama Milla. Meu Deus, Esmay! O cara te deu o
número dele , porque ele não queria ser invasivo. Queria te dar o espaço
que você precisa.
— É — diz Sthela.
Eu sei. Ele é tão perfeito. Eu nem sei como isso é possível. A gente se
encontrar assim… Parece até que…
É um presente de Natal, Esmay! fala Sthela, sorrindo. Cato sobe
em sua perna, miando, e ela o faz aparecer na câmera. Não é, Cato? Fala
pra titia May que ela precisa agarrar esse gatão.
— Meu Deus, Sthela… Você é tão direta.
— E eu não me envergonho disso — diz, orgulhosa.
Ok. Da próxima vez, vou pensar duas vezes antes de ligar para essas duas
na intenção de falar da minha vida amorosa. Quer dizer… que vida
amorosa? Eu sequer tenho uma.
— Então… — engulo em seco. — Acham que eu deveria ligar?
A ligação de Milla está péssima agora. Ela deve estar enfiada em alguma
trilha maluca, que a chamada do Zoom vive caindo. O áudio travando.
Não é natural que você esteja às quatro da tarde com uma roupa de treino
no meio do mato.
— Sim — responde Sthela.
— Será que ele pode atender agora?
— Você pode tentar.
— Não quero atrapalhar nada importante.
— Não vai .
— Será?
— Só vai saber se tentar.
— Tá.
Tá.
Meu Deus! Porcaria de internet! Oi, gente. O que eu perdi?
— Só a Esmay em uma jornada infinita de autodepreciação.
— Não estou me autodepreciando.
As duas fazem uma careta. Se Milla e Sthela estivessem lado a lado,
teriam se olhado como cúmplices e formado um complô contra mim.
Traidoras.
— Só estou pensando nas implicações disso.
Implicações? questiona Milla. Cacete, Esmay! Você é muito
certinha. É uma ligação. Não tem como o doutor Zhang saber disso. Não
tem como ninguém naquela porcaria de clínica saber, na verdade. Relaxa.
Não é como se vocês fossem a Angelina Jolie e o Brad Pitt quando eram
casados.
— Meu Deus! Que comparação de merda! — grunhe Sthela.
— É. Concordo.
Concordo também diz Milla. É uma comparação de merda! O
que eu quero dizer é que vocês não são famosos. Não é como se fosse haver
um paparazzi em cada lugar que ele queira te levar.
Milla realmente está em uma trilha. Ela vira a câmera para que a gente
possa ver a cachoeira desaguando ao fundo.
— Lindo, não é? — pergunta ela, e nós concordamos. É mesmo lindo.
— Então eu ligo? — questiono, mordendo as cutículas do meu polegar.
— Liga! — as duas falam ao mesmo tempo. Um coro em tom de bronca.
Durante o dia, continuo sem coragem.
No entanto, naquela mesma noite, quando giro de um lado para o outro
na cama e não consigo dormir… quando sinto meu estômago afundar e uma
ansiedade tomar conta da minha mente e do meu coração… quando sinto…
saudades de ouvir a sua voz, brinco com a ideia de ligar para Oscar.
A hora que for , foi o que ele disse quando me deu seu número.
São duas da manhã, e talvez eu tenha tomado coragem de ligar agora
porque, definitivamente, ninguém atenderia uma chamada a esse horário .
A menos que Oscar esteja de plantão.
E merda! Eu faço uma bobagem estratosférica porque… eu ligo.
E fico estupefata quando… bem, quando Oscar atende no primeiro toque:
— Está tudo bem?
— Oscar, me desculpa o horário. — Droga! O que eu falo? — Eu… onde
você está?
— Em casa — responde, com uma voz rouca.
Ouço o que parece ser o barulho de lençóis, talvez.
— Eu te acordei?
Merda! Acordei. Ele está com voz de sono. Meio grogue. A resposta é
sim, E smay!
— Sim. Está tudo bem? — repete a pergunta.
— Ah, sim. Eu achava que você estaria de plantão. Me desculpa por ter te
acordado. Pode voltar a dormir.
Pode voltar a dormir? Mas o que diabos estou fazendo? Oscar deve
estar me xingando em três idiomas diferentes agora.
Felizmente, isso não tem mais volta. Esmay, por que você ligou tão
tarde? Você está passando mal? Precisa de alguma coisa?
Ouço um tom de urgência no modo como fala. Como se Oscar estivesse
disposto a pegar a chave do carro naquele mesmo instante para vir me
salvar. De novo.
É que… eu queria conversar com você. Mas acho que escolhi
um péssimo horário.
Uma pausa. Assustadoramente longa.
— Tudo bem.
Quase consigo visualizá-lo passando as mãos pelos cabelos escuros e
lisos. Acho que já decorei algumas de suas manias. Essa é uma delas.
Tudo bem tipo vai voltar a dormir ou tudo bem tipo a gente pode
conversar?
Eu me acomodo na cama, apoiando as costas na cabeceira e abraçando as
pernas.
— Acho que a segunda opção é a melhor escolha diz, agora um pouco
mais em alerta. A voz mais firme. Não consegue dormir por quê? Está
sentindo dor, enjoo? Me diz, Esmay.
Oscar adora falar meu nome. E eu gosto de como meu nome soa na voz
dele.
Humm… no momento, estou sem sono mesmo. Tentei ouvir
música e ler, mas parece que nem isso consegue mais me distrair.
Ouço um barulho do outro lado da linha. Ele está rindo? Do quê?
— O quê? — pergunto, confusa.
Me ligou às duas da manhã porque sou a melhor distração à sua
disposição?
Ele continua rindo. Uma risada gostosa, que envia arrepios por todo o
meu corpo. Meu coração pega fogo.
— O quê?! Não foi isso que eu… não era isso que eu…
— Eu te distraio?
— Não! Não , Oscar.
— Não?
Acho que ele está adorando isso. Porque continua rindo baixo enquanto
brinca com a integridade da saúde do meu coração. Órgão traidor e fraco.
— Não.
Tudo bem. Ele para de rir. Então você me ligou às duas da
manhã porque me acha um no saco e pensou que, se conversasse
comigo, ficaria tão entediada que isso faria você dormir rapidinho?
— Não também, Oscar.
Tudo bem. Eu não ligo. Graças a Deus que você ligou, Esmay. Olha,
eu cheguei a me arrepender de não ter anotado o seu número naquele dia.
Eu não queria ser invasivo. Me achei burro pra cacete.
Ah...
— Estou feliz que tenha ligado.
— Mesmo às duas da manhã?
— Especialmente às duas da manhã.
Abro um sorriso. Ele continua:
— Nunca falaram pra você que alguns homens gostam de acordar às duas
da manhã pra conversar com mulheres bonitas e inteligentes por ligação?
Solto uma risada frouxa.
— Não sabia, não é? — pergunta ele, com uma voz rouca e sexy.
Faço que não com a cabeça, mesmo que ele não esteja vendo.
— Mulheres… — resmunga.
Oscar suspira. Sinto a lufada de ar mesmo do outro lado da linha. Ele está
caçoando de mim.
Acho graça disso. Quando éramos adolescentes, Oscar era engraçado.
Mas ainda assim, um pouco travado. Acho que eram as circunstâncias da
vida dele. Tudo era tão problemático.
— Senti saudades de você — admito.
Oscar fica em silêncio. Mas dura pouco.
— Achei que nunca ia ouvir isso. Também senti sua falta, Esmay.
— Eu sei.
— Sabe, é ?
Dou uma risada. E então ficamos em silêncio.
— Esmay? — diz ele, em tom de reprovação.
— O que foi? — respondo, um pouco na defensiva.
— Você precisa continuar falando. Sem parar, beleza?
— Eu não…
Eu sei que te contei que nós, homens, gostamos de acordar às duas da
manhã pra falar com mulheres inteligentes e ridiculamente lindas. Esse é
um segredo nosso , e eu contei diz, meio sonolento. Mas talvez
alguns homens tenham menos resistência. Deve ser o meu caso.
— Ok…
Então continua falando sem parar pra eu não cochilar, tudo bem?
Eu gosto de ouvir você falar, das risadas que você dá. Quero te fazer
companhia. Me ajuda a ficar acordado?
Meu coração idiota um salto tão violento que sou obrigada a levantar
da cama. Respiro fundo uma, duas vezes.
— Você não precisa ficar acordado. Volta a dormir.
Não fala baixinho. Pode conversar sobre qualquer coisa.
Prometo que não vou dormir.
Então eu falo sobre várias coisas. Porque quando me sinto a vontade e
quando quero sou uma tagarela. Não me lembro de muita coisa depois
disso. Oscar continua ouvindo, comentando uma coisa ou outra. Critica
quando digo que, na edição do BBB em que Juliette venceu, eu assisti como
uma louca.
— Esmay?
— Oi.
— Você é muito inteligente, sabia? Sempre achei você fora da curva.
— Isso parece tão condescendente.
Não é, não Oscar garante. Eu reviro os olhos. Mas sério! Como
uma pessoa tão inteligente como você consegue assistir a uma porcaria
dessas?
— Você sequer assistiu a alguma coisa dessa edição?
— Eu jamais perderia o tempo que eu não tenho com isso.
— Hum-rum. Ok.
Mas quando envio alguns links do YouTube pra ele… quando Oscar
assiste às maiores tretas entre os principais participantes da edição…
quando alianças destroçadas por fofocas e conspirações… ele se torna
um comentarista nato, digno de respeito.
— Isso deve ter sido loucura no ao vivo.
— Foi. Uma final digna de Copa do Mundo, não acha?
— Você é sempre tão exagerada assim? — pergunta ele.
— Você não imagina o quanto.
— Me fala mais sobre você .
— Por quê? Só pra depois tirar sarro de mim?
Esmay… ele suspira. Acho que está com sono. Porque eu também
estou… sonolenta. — Você não faz a menor ideia, não é?
— Do quê?
— Do quanto eu…
A voz de Oscar fica distante. Não porque ele para de falar, mas porque o
meu corpo começa a ceder antes de mim.
O celular escorrega um pouco entre os meus dedos. O travesseiro parece
mais macio. O quarto, mais aconchegante, os lençóis quentinhos.
A última coisa que percebo é a respiração dele do outro lado da linha
constante, presente — antes de tudo ficar silencioso.
E então, eu durmo.
— Não está mesmo cansado? — pergunto e ouço o barulho de um molho de
chaves. Oscar… pode desligar. A gente se fala depois. Não quero
atrapalhar seu descanso.
Ouço quando ele abre a porta do apartamento.
— Você quer desligar? — pergunta, com uma voz suave. — Tudo bem se
estiver com sono. Você precisa descansar bem.
— Não quero, não — confesso, quase sussurrando. — Eu gosto .
— Gosta do quê, Esmay?
— De ouvir a sua voz.
Silêncio. Oscar não responde. Meu Deus! Eu acho que exagerei. Por que
ele não…
Eu amo ouvir a sua voz diz ele, sem rodeios agora. Na verdade,
eu amo tudo em você, Esmay. Isso não é nenhum segredo. Você sabe.
— Sei, é?
Não tem como não saber. Cheguei de um plantão que pareceu sugar
até a minha alma. No entanto, quando você me ligou, eu atendi. É o que eu
sempre faço. Vou estar sempre disponível para você.
— Eu nem sei o que dizer.
— Diga que aceita.
— Oscar…
Esmay, não tem como eu aguentar mais. Ele suspira, depois ri. É.
Acho que ele está dando risadinhas. Você não pode ser assim tão
malvada.
— Não estou sendo.
Está retruca ele. Eu não me importo em ser rejeitado por você.
Seria uma honra, na verdade. Mas eu queria poder ter a chance de ver você
para além daquele hospital. Uma única vez. Eu queria poder te levar para
jantar em algum lugar que não seja a cantina da clínica. Um lugar à sua
altura.
Estou corando. Ainda bem que me encontro embaixo do meu cobertor, no
escuro, com a porta do quarto trancada. Posso ficar vermelha à vontade.
Ninguém vai saber.
— Esmay… diga que aceita.
— Oscar, por favor… — peço.
Por favor, o quê? Por favor, deixe de ser atencioso, gentil, perfeito,
incrível…? Por favor, deixe de ser o homem mais lindo que conheço?
— Diga que aceita, meu bem.
Meu bem? Ele sabe como me fazer derreter. Meu coração acelera. Eu
quero… dizer que sim.
Tudo bem ele quebra o silêncio. Eu solto o ar que estava
prendendo. Sou um homem paciente, Esmay. Leve o tempo que quiser.
Tenho todo o tempo do mundo quando o assunto é você .
Ele não insistiu.
Depois disso, ficamos mais de uma hora conversando ao telefone.
Sempre fui muito curiosa. Sendo assim, aproveito para perguntar algumas
curiosidades do corpo humano. Na maioria das vezes, é baboseira.
Porém, Oscar parece não se importar. Ele é sempre solícito e responde a
todas as minhas perguntas. Mesmo as mais idiotas.
Quando pergunto por que sentimos dor de cabeça, que o cérebro não
sente dor, ele não hesita em responder, mesmo aparentemente exausto:
O cérebro não sente dor, mas ele é ótimo em perceber quando alguma
coisa ao redor dele está errada.
ele traduz isso em dor de cabeça? pergunto, soltando um bocejo
demorado.
Oscar uma risada baixa. Ele parece estar andando pelo quarto agora.
Será que está tentando manter o cérebro em alerta? Tentando não…
dormir?
— Está com sono, meu bem? — pergunta com uma voz divertida.
— Não. De jeito nenhum!
Posso ver a imagem clara de Oscar à minha frente agora. Sorrindo de um
jeito fofo enquanto balança a cabeça.
— Você gosta de se torturar, não é? — pergunta.
— Isso nem de longe é tortura — rebato. — Por favor, Oscar. Continua.
Outro bocejo. Ele sorri.
Beleza. Bom, é como morar num prédio silencioso, mas com um
alarme sensível demais.
Solto um muxoxo. Será que entendi direito?
O cérebro fica em uma “embalagem”. Ele não sente dor, mas tudo em
volta sente. Quando um vaso dilata demais, um músculo contrai ou uma
membrana estica, esses sensores disparam.
— Como um termostato? — indago, curiosa.
Isso! Será que estou diante de um gênio? elogia, com uma voz
gostosa de ouvir.
— Eu só disse o óbvio.
Ouço uma torneira sendo aberta.
— Você tem que aprender a receber elogios, Esmay.
Reprimo um revirar de olhos. Ok. Ele tem razão. Não me saio muito bem
com elogios.
— Continuando…?
Beleza. O cérebro funciona como um termostato, meu bem
continua. Ele tenta manter tudo estável. Quando algo sai do padrão, ele
dispara um aviso: cansaço, dor de cabeça, febre.
Uma pausa.
Gostei dessa metáfora do termostato digo, orgulhosa de mim
mesma.
Se fosse uma prova oral, eu te daria nota dez. Excelente observação.
Você é muito inteligente, minha aluna mais excepcional.
— E também a mais bonita .
— E também a mais bonita. Óbvio — diz, divertido. Eu sorrio.
Nós conversamos por mais alguns minutos e, quando desafio Oscar a
falar todos os ossos do corpo humano, achando ingenuamente que
dessa vez ele iria desistir, ele não só aceita como começa imediatamente.
A voz muda e fica mais baixa, mais lenta. Quase cuidadosa.
Ele começa pelos maiores, segue pelos menores, e eu deixo de prestar
atenção nos nomes estranhos muito antes de ele chegar aos membros
inferiores. As palavras se embaralham num ritmo constante, hipnótico. Não
importa quantos ossos sejam. Não importa como se chamam. O que importa
é o jeito como ele fala, como se soubesse exatamente que eu estou ali, de
olhos fechados, respirando mais devagar a cada minuto, quase dormindo.
Relaxada demais para conseguir me manter acordada.
Meu corpo afunda no colchão. O cobertor parece mais pesado. Mais
quente.
Quando ele chega nos ossos das pernas, eu acho, a voz dele virou
som. Uma presença. Algo seguro. Distante e, ao mesmo tempo, perto
demais.
Não vai conseguir ficar acordada, Esmay ele diz, em algum
momento.
Eu tento responder. Juro que tento. Mas o sono vem antes. Um sono que
me puxa sem pressa.
A última coisa que tenho consciência de ouvir é a voz dele outra vez,
ainda mais baixa, quase um segredo:
— Dorme bem, meu amor.
Não sei se ele disse mesmo. Ou se foi o meu cansaço inventando esse
carinho.
Quando penso nisso, já estou dormindo.
Tento parecer indiferente quando Milla me pergunta na semana seguinte:
— Tem conversado com ele, não é?
Meu coração acelera. Sinto um aperto na boca do estômago.
Sim. Todos os dias. O tempo todo.
Oscar sempre arruma um tempinho para mim.
— Quê?!
Elizabeth diz em tom de reprovação. Eu me encolho. Eu não
sou burra. Não precisa ser nenhum gênio para perceber isso. Apesar de ser
esse o meu caso também.
Reviro os olhos.
Estamos caminhando lado a lado em direção ao bistrô de que mais
gostamos. Ao menos é isso que eu estou tentando fazer, enquanto me
esforço ao máximo para acompanhar o ritmo de suas pernas longas.
Hoje o dia está frio e pede um chocolate quente.
— Já se beijaram alguma vez?
Ah, meu Deus! Não, Milla. Empurro seu ombro com o meu.
Você e Sthela são muito inconvenientes às vezes. Espero que façam isso
comigo . Nem todo mundo aguenta.
— Ah! Se quiser ter o prazer da minha companhia, tem que aturar.
— Infelizmente eu aturo isso há mais de três anos.
Yes! Mas e aí? Já saíram, já se beijaram, vocês ao menos já…
Nem ouse completar essa última pergunta interrompo seu
raciocínio assustadoramente acelerado . As pessoas na rua nos olham de
cara feia. Talvez eu esteja falando alto demais. Para de fazer perguntas
constrangedoras, Milla.
Meu Deus! O que falei demais? diz, levando as mãos ao peito. Os
lábios dela se curvam em um sorriso torto. Esmay, você claramente está
caidinha por este homem. Não consegue nem fingir. Aposto que, se ele
pedir qualquer coisa, com certeza você vai…
Tapo a sua boca com as minhas mãos, nervosa. Eu sou rápida, graças a
Deus. De repente, fico ansiosa. As mãos suando, a respiração acelerada. Ah,
meu Deus! Acho que alguém aqui precisa respirar devagar. Agora . Eu , no
caso.
— Como você é certinha, amiga. São perguntas normais e inocentes.
Normais, talvez. Inocentes, nem tanto digo, tentando soar
controlada.
Eu não estou entrando em pânico. Me obrigo a acreditar nisso.
Certo. Ela junta as mãos. Você está parecendo uma pimenta de
tão vermelha.
— Eu não…
Respira, Esmay. Quero ter a chance de provar esse chocolate quente
antes de você morrer.
Eu morrer? pergunto, odiando o tom choroso da minha voz.
Deus me livre! Por que diz isso?
Sim. Ela responde, olhando fixamente para mim. Estamos a alguns
metros de atravessar a rua. Fico até com medo de passar em cima da faixa
por alguns segundos. Isso é besteira. falando isso porque, se
continuar a prender a respiração assim toda vez que fala do Oscar, não
quero nem saber o que vai acontecer com o seu cérebro quando…
Ela se interrompe. Depois, morde o lábio inferior, e eu fico confusa.
Quando… o quê?
Ludmilla é meio maluca e um pouco imprevisível. Então nunca sei o que
esperar dela. Seu senso de humor muda como o seu cabelo . O tempo
inteiro. Inclusive, eu a vi de cabelo natural ontem. Hoje está de trança
com jumbo num tom de marrom-claro.
De repente, me sinto inquieta. Será que ela pretende me jogar na frente de
algum carro quando ele passar? É . Essa cara dela está esquisita.
pensando em cometer amigacídio, sim.
Não quero nem imaginar o que vai acontecer se você o encontrar
pessoalmente fora daquele maldito hospital.
Do que é que você está falando, sua matadora de amigas? Ela
inclina a cabeça, confusa. Acho que não entendeu a crítica explícita da
minha… acusação sem fundamentos?
Mas eu juro . Parecia que ela ia me empurrar, sim.
— Esmay.
— Oi.
— Você é esquisita pra cacete!
— Eu sei .
— Eu meio que gosto — admite. O sorriso matador continua lá.
Agarro a alça da minha bolsa de camurça verde, com chaveiros fofinhos
que ganhei de presente dela e de Sthela, e a observo morder os lábios para
suprimir uma gargalhada.
Espero que tente ser menos esquisita. E, por favor, respira, Elizabeth.
Se continuar a prender a respiração assim, vai comprimir seu cérebro.
Inclino a cabeça. Agora sou eu que estou confusa.
— Respira com naturalidade.
Já estamos atravessando a rua.
E, por favor, esse é o ponto-chave da questão: não fica puta
comigo?
— Por que eu ficaria puta com…
Ah! Ah.
Mas é óbvio que eu vou ficar brava, Milla.
Eu acho melhor você correr, sua…
Não tenho a menor chance de dizer nada disso a ela. Porque, no instante
em que me viro para olhar em seus olhos, ela já se foi, passando por ele .
Ombros largos, que eu me lembro bem. Os olhos verdes mais bonitos que
vi, o sorriso cativante, a beleza assustadoramente viciante. Uma
montanha de músculos de 1,90 metro. Oscar.
Ele vem em minha direção. Eu fico paralisada. De um jeito bom, claro.
Porque eu sou apaixonada por ele.
As pessoas passam na rua apressadas com os presentes de Natal.
Conversando sobre a preparação da ceia. Eu continuo parada. Catatônica no
bom sentido da palavra.
Ele faz isso comigo. Sinto borboletas coloridas e brincalhonas no meu
estômago.
Ele acena com a mão, de leve. Sorri . E depois sorri mais.
Minha boca fica seca. Tento sorrir, mas parece que estou tendo um
derrame, eu acho. Sorrio de boca fechada. Com os lábios mais para um lado
do que para o outro. Ajeito o boné branco na cabeça. Será que estou bonita
o bastante?
Olho para ele, que sim. Definitivamente está de tirar o fôlego.
Meu coração acelera.
Acho que estou ruborizando. Ele também está. No caso dele , deve ser o
frio, porque não é possível que ele… Deus! Lembrar de respirar. Ok. Milla,
sua enxerida! Você vai me pagar.
Ele se aproxima. Mais e mais. Não saio do lugar. Meus pés parecem
chumbos. Não preciso me esforçar mais tanto assim…
Porque, quando eu menos espero, Oscar só precisa de mais um passo para
chegar até mim. E então, como se isso tudo não fosse demais para o meu
coração acelerado… Oscar faz algo que muda tudo.
É rápido, mas tenho tempo de impedir, caso eu queira. No entanto, não
faço isso. Porque sim. Eu também quero.
Minhas mãos tremem. Acho que as dele também.
E é aí que Oscar me beija.
CAPÍTULO ONZE
Não é um ultimato
Em vão tenho lutado comigo mesmo; nada consegui. Meus sentimentos não podem ser reprimidos
e preciso que me permita dizer-lhe que eu a admiro e amo ardentemente.
— Orgulho e Preconceito
O beijo dura o suficiente para me deixar tonta.
Mal consigo me segurar sobre minhas pernas.
Então Oscar agarra a minha cintura. Um aperto forte, mas não é
inconveniente. Eu gosto.
Tudo bem? pergunta, com a respiração falha, os lábios
entreabertos, os olhos verdes brilhantes. Me desculpa. Peguei você de
surpresa. Olha eu…
Suas mãos ainda tremem enquanto ele me segura. Esse homem enorme e
um gênio da oncologia está praticamente tendo um colapso, e isso tudo é
por minha causa? Tento não deixar isso subir à cabeça.
Você… insiste ele, cauteloso, o corpo inclinado em minha direção.
— Está bem? Foi tudo muito…
É. Foi sim.
— Estou bem, obrigada.
Ele assente sem nunca tirar os olhos de mim.
Oscar é arrebatador. Nunca havia sentido isso por mais ninguém. Até a
maneira como me toca é diferente. Como se eu fosse… feita de cristal. Não.
Como se eu fosse feita de uma matéria muito frágil. Como se ele quisesse
me proteger o tempo inteiro. E Deus, eu deixaria ele fazer isso por mim.
Amaria ser cuidada por ele.
Foi uma armadilha ele diz. Percebo um leve incômodo em seu
rosto perfeito. Como ele fala… é quase como se sentisse vergonha . Eu
tinha que tentar, Esmay. Milla aceitou ser meu bode expiatório.
Sinto o rosto corar novamente. O coração batendo forte no peito. Não
faço a menor ideia de como ele conseguiu convencer Milla a fazer isso. Ela
é incapaz de guardar segredo. Mas, veja só: guardou.
Ela é um excelente bode expiatório retruco, com a voz fraca,
insegura de repente. — Ela é esperta também. Quando viu que as coisas iam
sobrar pra ela, fugiu sem deixar rastros.
— Uma parceira de crimes excepcional.
Ergo uma sobrancelha. Depois sorrio.
— Sim. Ela é .
Oscar reflete por alguns segundos. Sorrio um pouco mais, agora
mostrando os dentes.
Eu adoro quando você sorri. Esse seu canino… confidencia ele,
baixinho. Eu prendo a respiração, porque esses olhos verdes bálticos
conseguem me hipnotizar. Não consigo parar de olhar. Quando você
sorri, quero dizer.
— Os meus caninos?
— Sim. Os seus caninos — repete. — Lindos.
— Obrigada?
— Aprendendo a aceitar elogios mais facilmente, Esmay?
— Aprendendo com o melhor.
Agora Oscar mantém apenas uma das mãos apoiada em minha cintura. A
outra ele usa para acariciar minha bochecha, tocar meu queixo, a pontinha
do meu nariz, enquanto fala comigo. Acho isso fofo . Oscar é muito fofo, na
verdade.
— Não vai ficar metida , linda.
Bufo de deboche.
Ah, fala sério. Agora que aceitei o fato de ser ridiculamente linda,
você quer que eu tenha humildade? Não. Toco o dedo na ponta do seu
nariz obscenamente arrebitado, e ele o franze. Fofo. Não mesmo. Eu
quero ser metida.
Ele me puxa para longe da multidão que se aproxima. Um grupo de
homens vestindo roupas engraçadas de Natal .
Vem cá.
Olho para ele e sinto aquele calorzinho que sempre surgia quando ele me
ligava. Quando eu ouvia essa voz. Com essa cadência toda ao meu dispor.
Você é absurdamente linda, meu amor diz Oscar, sem vergonha
alguma, os lábios agora bem próximos à minha orelha. Pouco depois, ele
volta a me encarar, observando meu rosto com cuidado. Memorizando cada
centímetro das minhas bochechas sardentas. Dos meus lábios. Eu
estremeço. Esse homem… — Por mim, pode se gabar o quanto quiser. Você
tem licença poética da beleza pra isso. Não sei se isso existe, mas, se não
existir, eu acabei de criar.
Gargalho, e Oscar afunda o nariz no meu cabelo cacheado ralo.
A gente pode entrar? — pergunto, apontando com o queixo na direção
do bistrô. Foi uma armadilha, mas ainda assim eu quero um chocolate
quente bem gostoso. — Eu… estou com frio.
Está com frio, meu amor? Ele afaga meus ombros. Oscar usa uma
blusa bem quentinha, preta, e um casaco elegante verde-escuro. Combina
com a cor de seus olhos. Vem cá. Isso… Deixa eu te esquentar. Espera.
Na verdade, eu acho que…
Ele retira o casaco verde do corpo.
— Não, Oscar.
Ele sorri, não se importando.
Esse homem possui algum termostato no corpo que aumenta a
temperatura corporal e eu não estou vendo?
— Melhor agora?
— Mas e você…?
Amor, eu não sou tão sensível assim murmura , com o rosto a
centímetros do meu. E, mesmo assim, não sou eu que estou com os
lábios roxos.
— Estou de lábios roxos?
Ele assente.
Sou muito fraca mesmo. Ok. Obrigada. Mas, e então… a gente pode
entrar?
Ele reflete por alguns segundos e então assente, os olhos procurando os
meus.
A gente vai entrar, Frozen brinca, apertando a ponta do meu
nariz. — Só…
Seus olhos, sua voz e seu sorriso são suaves. Oscar não parece nem um
pouco nervoso. Não como eu. Parece que ele vinha pensando em tudo
havia bastante tempo. Ele conhece meu coração como ninguém.
— Só…? — pressiono, inclinando a cabeça para o lado.
— Esmay… eu…
Você…?
Franzo as sobrancelhas. Inclino ainda mais a cabeça. Talvez eu esteja
ficando um pouco tonta com esse ângulo estranho.
— Você aceita casar comigo?
Arregalo os olhos. Faz algumas semanas que a gente se reencontrou e
eu… Não, espera . Ele disse isso mesmo? Eu devo estar delirando por conta
do frio. Porque Oscar definitivamente não me pediu em casamento.
— O que você disse?
Ele sorri, envergonhado. Fecha os olhos com força e então os abre. Estão
mais brilhantes do que nunca.
— Você gostaria de casar comigo?
Se eu gostaria…? Abro a boca para responder, mas ela permanece aberta.
Consigo sentir meu sangue pulsando nos dedos, no pescoço. Todo o meu
corpo pulsando. Por Oscar ou para Oscar. Eu não sei. Meu coração está
saltitante e, ao mesmo tempo, confuso.
Oscar, eu estou… De repente, paro. Engulo em seco. Respiro
fundo. É assim que você imaginava que seria o seu pedido de
casamento?
Era uma pergunta verdadeiramente inocente. Eu estava chocada, mas
também muito curiosa. Porque até mesmo meu coração sabia que Oscar não
era impulsivo. Mas isso é…
— Eu não faço a menor ideia, Esmay.
Ele está sério. Um pouco nervoso agora.
Oscar, você devia estar ajoelhado ou… Sinto meu rosto queimar.
Os lábios tremem. Mordo a bochecha. Estou tão nervosa que tenho medo de
desmaiar. — Você devia , amor.
Ele arregala os olhos. Eu nunca o chamei assim. Mas quem eu quero
enganar? Eu amo esse Homem. E não é um amor qualquer. Senti isso
durante boa parte da minha vida , e acho que isso não vai mudar. Oscar
sente o mesmo. Essa é a prova.
Ele se ajoelha.
— Você devia me oferecer um anel?
Seu sorriso agora é imenso.
Ele retira do bolso uma caixinha. dentro, um anel lindíssimo. Pedras
cravejadas em um tom verde. Parecido com… a cor dos seus olhos.
Tenho um sobressalto.
— Melhor agora, meu bem? — pergunta, sorrindo, e eu quero beijá-lo.
— Quando foi que você…
No dia em que encontrei você pela primeira vez reflete, sorrindo.
— Quando você quis dá uma de bela adormecida.
Meus olhos se arregalam, quase saltando das órbitas.
— Oscar, isso é completamente insano.
— Eu sei . Mas é o que eu quero, Esmay. Quero ser seu marido. Me deixa
cuidar de você?
Você me acha tão bonita assim a ponto de não conseguir esperar mais
alguns meses?
Isso, meu amor. Você é bonita demais para passar despercebida. É
por conta disso que quero me casar com você.
Ele revira os olhos e depois sorri. Um sorriso frágil e bonito. Q uero
encapsulá-lo.
— Tive tempo demais para pensar a respeito, Esmay — declara. — Antes
mesmo de encontrar você naquela escada. Antes até de aceitar a residência
na clínica do Zhang. Tive muito tempo para fantasiar uma vida com você.
E, se o que você quer é pensar mais um tempo, eu espero. Não é um
ultimato. Como já disse, sou um homem paciente.
Minhas mãos estão tremendo. E isso definitivamente não tem nada a ver
com o frio.
Posso fazer a pergunta quando se passarem mais alguns meses. Por
mim, tudo bem.
Faço que não com a cabeça.
Não é isso que eu quero.
— Não… você não aceita? pergunta, ainda de joelhos. Está tão frio. O
chão ainda molhado da chuva mais cedo. Mas ele sequer se importa.
Pode pensar mais a respeito. Não precisa responder agora.
— Não, eu… Oscar, eu…
— Amor, você quer que eu pergunte de novo?
Faço que não novamente.
— Não precisa.
Meu rosto está queimando. Meus olhos se enchem de lágrimas.
— Meu amor…
— Eu aceito — digo, e mais lágrimas molham meu rosto.
Quero pular em seu colo, abraçá-lo, beijá-lo muito. Mas fico desnorteada.
Deve ser o choque. As pessoas ao redor continuam passando. Sinto o cheiro
de café e chocolate quente vindo de dentro do bistrô. O vento gelado castiga
minha pele, mas meu coração, em contrapartida, fica quentinho.
Aceito me casar com você, Oscar! repito. Ele se levanta
rapidamente. Uma montanha imensa que me separa do resto do mundo.
Quero tudo com você, meu amor. Sempre quis.
Meu Deus, Esmay! Ele me abraça. Meu amor, eu nem acredito.
Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Sério!
Ele me levanta e me rodopia no ar algumas vezes. Gargalho, e ele me
aperta ainda mais.
Os braços fortes ao redor da minha cintura. O cheiro gostoso inundando
minhas narinas. Sua voz linda quando diz que sou perfeita, que me quer,
que sou o amor da sua vida. Arrepios percorrem meu corpo. Esperei tanto
tempo por isso que agora parece que tudo finalmente se encaixou.
— Eu te amo, Oscar.
Ele sorri. Eu também estou sorrindo um bom tempo. Minhas
bochechas doem.
— Oscar, você não tem ideia do quanto eu…
— Acho que eu tenho, sim.
Ele me põe no chão. Estou feliz, tonta e completamente inebriada.
Minhas emoções à flor da pele.
— Eu te amo — repito. Ele assente. — Você é perfeito.
Seu sorriso fica maior.
Esmay… chama, com o queixo apoiado no topo da minha cabeça.
Eu me afasto para olhar bem seu rosto. Meu amor, será que finalmente
eu posso só…
Ele provavelmente não viu meu sorriso antes, porque agora, quando me
encara de verdade, sua voz fica mais confiante.
— Será que agora eu poderia… beijar você?
— Oscar… Ele me encara, os olhos brilhando. — Eu achava que você
nunca iria pedir isso.
E então ele me beija. Diferente do outro, este é mais reivindicatório.
Porque agora Oscar sabe o que eu quero de verdade.
Após alguns segundos, sem fôlego, ele me chama. Estou tão feliz que
me sinto um pouco sonolenta. Como isso é possível?
— Amor? — Oscar acaricia minhas costas. Uma carícia terna. Eu poderia
morar nesse abraço. — Feliz Natal , querida.
Olho em seus olhos e vejo a simplicidade dessas palavras. Sim. Hoje é
Natal. E sim , eu estou feliz . Como nunca estive.
— Feliz Natal, meu amor — digo.
Ele sorri.
— Na verdade… Feliz Natal, meu futuro marido .
Quando eu digo, estou de olhos fechados sem conseguir ver sua
reação. Mas sei que Oscar está sorrindo . Acho que ele nunca vai parar de
sorrir. Ao redor , o frio continua mas aqui, entre o cheiro de chocolate
quente e o sorriso dele, eu finalmente estou em casa.